Em 16 de setembro de 1810, o padre Miguel Hidalgo tocou o sino de sua Igreja em Dolores e convocou os paroquianos na madrugada. Horas depois, dezenas de milhares de camponeses, indígenas e trabalhadores de minas marchavam carregando a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. O processo mais radical das independências hispano-americanas havia começado. Cento e quarenta anos depois, o pintor Juan O’Gorman tentaria colocar toda essa história numa única tela de doze metros. O que ele escolheu mostrar, e o que escolheu omitir, diz tanto sobre o México quanto os próprios eventos de 1810.
O MÉXICO COLONIAL: TERRA, RIQUEZA E DESIGUALDADE
O Vice-reinado da Nova Espanha era, no início do século XIX, a joia do Império Espanhol. Seu território abrangia o México atual, a América Central, boa parte do sul dos Estados Unidos, Cuba e as Filipinas. A Cidade do México, com cerca de 130 mil habitantes, era uma das maiores cidades do mundo ocidental, construída sobre as ruínas de Tenochtitlan, a capital do Império Asteca destruída por Hernán Cortés em 1521.
A economia da Nova Espanha baseava-se na mineração de prata, especialmente nas minas de Guanajuato e Zacatecas. No campo, a maioria da população, formada por indígenas e mestiços, trabalhava em fazendas (haciendas) como peões, sem direitos em regimes de trabalho similares a servidão. A sociedade era organizada por um rígido sistema de castas: no topo estavam os espanhóis peninsulares; abaixo, os criollos; depois mestiços, mulatos, zambos; e no fundo indígenas e pessoas negras escravizadas.

Mapa do Vice-reinado da Nova Espanha (c. 1800)
Uma particularidade da Nova Espanha era o peso enorme da Igreja Católica como proprietária de terras, instituição educacional e banco de crédito. Padres como Hidalgo e Morelos viviam em contato direto com as comunidades camponesas e conheciam de perto a miséria do povo. Foram eles, e não os grandes proprietários criollos, que deram o primeiro passo para a independência mexicana.
O GRITO DE DOLORES: HIDALGO E A INSURREIÇÃO POPULAR
Miguel Hidalgo y Costilla era pároco de Dolores, em Guanajuato, quando soube que a conspiração que havia planejado com outros criollos havia sido descoberta pelas autoridades coloniais. Sem escolha, antecipou a ação: na madrugada de 15 para 16 de setembro de 1810, tocou o sino da Igreja de Nossa Senhora dos Dolores e convocou os paroquianos da cidade.
As palavras exatas que Hidalgo proclamou não chegaram até nós, mas a memória mexicana da independência registra: ‘Viva la religión católica! Viva Fernando VII! Viva la Patria! Viva y reine por siempre en este continente americano nuestra Sagrada Patrona, la Santísima Virgen de Guadalupe! Muera el mal gobierno!’ (Viva a religião católica! Viva Fernando VII! Viva a Pátria! Viva e reine para sempre neste continente americano nossa Sagrada Padroeira, a Santíssima Virgem de Guadalupe! Morra o mau governo!)
Além disso, Hidalgo prometeu devolver as terras comunitárias aos seus legítimos donos camponeses e suprimir o tributo indígena: foram essas promessas concretas, somadas à alta do preço do milho, que empurraram indígenas, peões, trabalhadores das minas e camponeses pobres a se juntar à insurreição.
Mural de azulejos do padre Hidalgo em Dolores Hidalgo, México
Se formou um exército popular, que cresceu rapidamente: em semanas chegou a 80 mil combatentes. Os insurgentes tomaram Celaya (20 de setembro), Guanajuato (28 de setembro) e Valladolid, hoje chamada Morelia em homenagem a Morelos. Em Guanajuato, os rebeldes invadiram a alhóndiga, o celeiro onde a elite havia se refugiado, provocando um massacre e iniciando a Guerra Civil. Hidalgo decretou a abolição da escravidão, da trata e do tributo indígena, medidas que nenhum outro líder independentista hispano-americano havia ousado tomar tão cedo.
A brutalidade do movimento assustou os fazendeiros criollos, que rapidamente se uniram aos peninsulares para reprimi-lo. A Igreja Católica excomungou Hidalgo e seus aliados. O vice-rei reorganizou um exército de trinta mil homens e assumiu a iniciativa no conflito.
Derrotado militarmente, Hidalgo tentou recompor sua base política prometendo restituir terras às comunidades indígenas e eliminar impostos e monopólios, mas não conseguiu reconquistar o apoio. Foi capturado, julgado e fuzilado em julho de 1811. Sua cabeça e a de seus companheiros foram expostas em jaulas de ferro na alhóndiga de Granaditas, como aviso.
Aarón Piña Mora é autor da obra que retrata o fusilamento de Miguel Hidalgo y Costilla, considerado o “Pai da Pátria” mexicana, ocorrido exatamente nesse local em 30 de julho de 1811. Abaixo da pintura, a placa de mármore fixa na parede reforça a importância histórica do espaço. Este mural fica no Palácio de Governo de Chihuahua, localizado na cidade de Chihuahua, no México.

| NOSSA SENHORA DE GUADALUPE E A POLÍTICA
Os rebeldes de Hidalgo carregavam estandartes com a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, a virgem mestiça que, segundo a tradição, apareceu em 1531 a Juan Diego, um indígena pobre. Guadalupe tem a pele morena e fala náhuatl. As tropas realistas carregavam Nossa Senhora dos Remédios, a virgem espanhola. A guerra de independência mexicana foi, entre outras coisas, uma guerra de símbolos religiosos: cada exército declarava, pela imagem que carregava, a qual povo pertencia. |
MORELOS: O PROJETO RADICAL QUE FOI DERROTADO
Com a morte de Hidalgo, a liderança passou a José María Morelos y Pavón, padre mestiço de Michoacán, filho de um carpinteiro.
Retrato de José María Morelos y Pavón (c. 1812)
Ele tinha o mesmo programa social de Hidalgo, mas uma concepção completamente diferente de como conduzir a guerra: ao contrário de Hidalgo, que liderou massas desorganizadas, Morelos recrutou um exército menor, mais disciplinado e mais eficiente.
Morelos organizou o Congresso de Chilpancingo em 1813, onde apresentou os Sentimentos da Nação, um dos documentos mais radicais das independências hispano-americanas. O programa de Morelos incluía a abolição permanente da escravidão, a extinção do sistema de castas, a igualdade jurídica de todos os habitantes, o fim dos grandes monopólios e a soberania popular como fundamento do Estado. Era uma proposta muito além do que a elite criolla estavam dispostos a aceitar.
Morelos foi capturado em 1815 e submetido ao mesmo processo de Hidalgo: excomungado, degradado de suas ordens sacerdotais e fuzilado em 22 de dezembro de 1815. Mas seus ideais não morreram. Cem anos depois, Emiliano Zapata e os camponeses da Revolução Mexicana o invocaram como antepassado espiritual. O estado de Morelos e a cidade de Morelia levam seu nome.
ITURBIDE E A INDEPENDÊNCIA DAS ELITES
Com Hidalgo e Morelos mortos, a guerra continuou de forma fragmentada. O impasse foi resolvido de uma maneira inesperada em 1820. O general Agustín de Iturbide, que havia lutado contra Hidalgo e a serviço dos realistas espanhois, decidiu negociar a independência com os rebeldes remanescentes. Sua motivação era conservadora: a Constituição liberal de Cádiz, restaurada na Espanha em 1820, após a derrota de Napoleão, ameaçava os privilégios da Igreja e das elites coloniais. Era mais seguro declarar independência e preservar a ordem social do que continuar sob uma metrópole que estava se tornando perigosamente liberal.
Em fevereiro de 1821, Iturbide e o insurgente Vicente Guerrero assinaram o Plano de Iguala, proclamando a independência sob três garantias: independência, união entre todos os grupos sociais e manutenção da religião católica. Em 28 de setembro de 1821, a independência foi declarada formalmente. Em 1822, Iturbide se autoproclamou Agustín I, imperador. O experimento monárquico durou menos de dois anos: em 1823, Antônio López de Santa Anna o derrubou e proclamou a república.
Curiosidade sobre Morelos: O lenço que aparece na cabeça de Morelos em praticamente todos os seus retratos, incluindo o mural de O’Gorman. A razão é banal e profundamente humana: Morelos sofria de enxaqueca. Para aliviar as crises, molhava o lenço e acrescentava ramos medicinais umedecidos em álcool, amarrando tudo em volta da cabeça. O acessório que se tornou símbolo de um herói nacional nasceu como remédio caseiro para dor de cabeça.
| DOIS PROJETOS EM CONFLITO
O processo mexicano produziu dois projetos incompatíveis. O projeto de Hidalgo e Morelos: independência com abolição da escravidão, extinção do sistema de castas e redistribuição de terras. O projeto de Iturbide: independência que preservasse os privilégios da Igreja, dos fazendeiros e dos militares criollos. O segundo venceu em 1821. O primeiro ressurgiria com Zapata em 1910.
‘Na América espanhola, o projeto de independência que venceu foi o das elites criollas; por isso a concentração de terras em mãos de poucos e as enormes diferenças sociais entre ricos e pobres se mantiveram inalteradas.’ |
O MURALISMO MEXICANO: ARTE, ESTADO E DISPUTA DE MEMÓRIA
A independência mexicana foi concluída em 1821, mas a disputa sobre quem eram seus heróis e qual era o seu significado continuou por mais de um século. O historiador Camilo de Mello Vasconcellos (FFLCH-USP, 2005) demonstra que, no século XIX, tanto conservadores quanto liberais tinham visão negativa de Hidalgo e Morelos. Somente após a vitória dos liberais com Benito Juárez em 1867 eles passaram a ser reconhecidos como heróis nacionais. E foi apenas após a Revolução de 1910 que sua consagração se tornou definitiva, com o muralismo mexicano como principal veículo.
Vasconcellos é preciso sobre a natureza do muralismo: era arte financiada pelo Estado, que contratava os artistas, pagava seus salários, oferecia os muros e sugeria os temas. O sindicato dos pintores, que reunia Rivera, Orozco e Siqueiros, lançou em 1923 uma declaração propondo ‘socializar a arte, produzir apenas obras monumentais para o domínio público’.
O Retablo de la Independencia (1960-1961), de Juan O’Gorman, é um dos murais mais monumentais e simbólicos da história do México. Localizado na Sala 6 do Museu Nacional de História, no Castillo de Chapultepec, na Cidade do México, a obra impressiona por suas dimensões: 4,40 metros de altura por 15,69 metros de largura .
A história do mural começa antes mesmo de O’Gorman assumir o pincel. A ideia partiu do então diretor do museu, Antonio Arriaga, que buscava uma grande pintura mural para suprir a falta de documentos iconográficos sobre a Independência, um período caótico que resultou na perda de muitos registros históricos . O projeto foi inicialmente oferecido a Diego Rivera, que chegou a desenhar o local do mural e a pesquisar retratos dos personagens. Com sua morte em 1957, no entanto, a tarefa recaiu sobre O’Gorman, que refez toda a pesquisa iconográfica a partir de sua própria perspectiva .
O título da obra, Retablo, evoca os retábulos ou painéis pintados em igrejas para narrar histórias de santos. O’Gorman utilizou essa referência para sugerir que a independência do México é uma história sagrada da nação. A obra, pintada na técnica de fresco , é uma alegoria que se desenrola em quatro atos, cobrindo o período de 1795 a 1814 :
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Primeiro ato (à esquerda): Retrata a injusta organização social da Nova Espanha, mostrando a elite (virreis, bispos e aristocratas) em contraste com a exploração brutal dos indígenas, representada por O’Gorman como um vía crucis — uma verdadeira crucificação do povo nativo . O mural denuncia a miséria e a violência do sistema colonial.
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Segundo ato: Apresenta os precursores ideológicos e políticos do movimento, situados sob um edifício neoclássico que simboliza o Enciclopedismo e a Revolução Francesa . Aqui estão representados catorze criollos, incluindo intelectuais, escritores, padres e cientistas que forneceram as bases do pensamento insurgente .
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Terceiro ato (centro e direita): É o coração do mural, dedicado ao movimento de insurgência propriamente dito. A figura central é o padre Miguel Hidalgo, representado duas vezes: uma como é conhecido popularmente e outra mais jovem, em traje de campanha, segurando o estandarte da Virgem de Guadalupe e a tocha da liberdade . O decreto de Guadalajara, que propunha a abolição da escravidão, aparece queimando na tocha . Diversas figuras do povo, vítimas da exploração, também se misturam aos heróis da luta .
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Quarto ato: Mostra o Congresso de Chilpancingo, com José María Morelos à frente, também retratado duas vezes: uma como general e outra em traje de campanha . A cena simboliza a consolidação política do movimento insurgente.
Ao todo, o mural reúne mais de 80 personagens , incluindo figuras históricas como Ignacio Allende, Josefa Ortiz de Domínguez e Vicente Guerrero, além de representantes de diferentes castas da Nova Espanha . Ao fundo, aparecem paisagens com cidades e edifícios históricos, como a Alhóndiga de Granaditas e o Colegio de Minería, que desenham um horizonte que transita da noite colonial para o amanhecer da autonomia . A lua no canto esquerdo e o dia que nasce à direita reforçam essa ideia de um “dia simbólico” em que o México passou das trevas da dominação espanhola para a luz da liberdade
Juan O’Gorman, (1960-1961), Museu Nacional de História, Chapultepec
Como ler o mural de O’Gorman: guia de personagens por zonas
O mural pode ser lido em zonas. Use o guia abaixo enquanto observa a imagem:
| ZONA / ELEMENTO |
O QUE VOCÊ VÊ E O QUE SIGNIFICA |
| Centro do mural |
Hidalgo com os braços abertos, vestes de padre, olhando para cima, cercado por uma multidão diversa: indígenas com lanças, camponeses com facões, soldados. É o centro moral da composição: a insurreição popular de 1810 como momento fundador da nação. |
| Estandarte central |
‘Viva N.ª Sra. de Guadalupe’ — o estandarte que os insurgentes de Hidalgo carregavam. Ao lado, bandeira com caveira e ossos cruzados. O’Gorman coloca no centro visual exatamente o símbolo religioso popular da insurgência, não os documentos filosóficos iluministas. |
| Esquerda superior |
Homens de casaca azul com documentos e globo terrestre: os filósofos iluministas europeus (Rousseau, Voltaire, Montesquieu). O’Gorman os inclui como participantes da cena, mas no fundo e à margem da multidão popular — reconhecidos como influência intelectual, não como protagonistas. |
| Padre de preto ao centro |
Padre de negro próximo a Hidalgo, segurando um documento: possivelmente Morelos. Aparece ao lado de Hidalgo mas em posição ligeiramente recuada, o que pode indicar a cronologia (Morelos assume após a morte de Hidalgo) ou a hierarquia simbólica que O’Gorman estabelece. |
| Direita — mulher e cavaleiro |
Mulher de vestido verde-esmeralda ao lado de homem em traje elegante sobre cavalo branco: possivelmente a Corregidora Josefa Ortiz de Domínguez e líderes criollos. O cavalo branco e as vestes nobres contrastam com os camponeses ao centro. |
| Direita — homens sentados |
Homens de terno sentados ao redor de mesa com documentos: o grupo que redigiu a independência conservadora de Iturbide (1821). A posição sentada e afastada da multidão sugere distância do povo. O’Gorman os inclui sem condená-los explicitamente. |
| Plano inferior — vítimas |
À esquerda, no chão, dois corpos prostrados: vítimas da guerra ou da ordem colonial. O’Gorman coloca as vítimas no plano mais baixo, literalmente pisoteadas pela história. É o único elemento que lembra diretamente o custo humano da independência. |
| Fundo — paisagem |
Montanhas, cidades coloniais com igrejas e, à direita extrema, um incêndio ao horizonte: a violência da guerra visível ao fundo enquanto os líderes ocupam o primeiro plano. O espaço pictórico sugere que a história acontece em múltiplos planos simultaneamente. |
- DOCUMENTOS HISTÓRICOS
📜 DOCUMENTO HISTÓRICO — Miguel Hidalgo, Grito de Dolores (16 de setembro de 1810)
“Meus amigos e compatriotas: não existe mais para nós nem rei nem tributos. Esta vergonhosa gabela, que só convém a escravos, suportamo-la há três séculos como sinal de tirania e servidão; terrível mancha que saberemos lavar com nossos esforços. Chegou o momento de nossa emancipação; soou a hora de nossa liberdade. Viva a Virgem de Guadalupe! Viva a América, pela qual vamos combater!”
⚠️ Importante: Não há fontes documentais confiáveis que registrem as palavras exatas pronunciadas por Hidalgo no Grito de Dolores. O que chegou até nós são reconstituições tardias, baseadas em relatos orais e memórias escritas anos depois do evento. Algumas versões incluem aclamações a Fernando VII — como “Viva Fernando VII” e “Morte aos gachupines” —, o que revela as ambiguidades políticas do momento: Hidalgo precisava, ao mesmo tempo, manter uma aparência de lealdade ao rei deposto por Napoleão e lançar um movimento de ruptura com a elite colonial. A ausência de um texto original faz do Grito menos um documento histórico preciso e mais um símbolo fundador da nação mexicana, reinterpretado ao longo do tempo conforme as necessidades políticas de cada época.
Perguntas sobre o documento:
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O discurso de Hidalgo afirma que “não existe mais para nós nem rei nem tributos”. A quais reis e tributos ele se refere?
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Quais palavras do discurso mostram que Hidalgo estava se dirigindo às classes populares, e não apenas aos criollos proprietários?
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O documento usa a imagem de Guadalupe como símbolo político. Por que uma virgem mestiça seria mais eficaz do que argumentos filosóficos iluministas para mobilizar camponeses indígenas?
Os presidentes mexicanos anualmente comemoram a independência reproduzindo o Grito de Dolores, o gesto rebelde de Hidalgo:
| 📜 DOCUMENTO HISTÓRICO — José María Morelos, Sentimentos da Nação (Congresso de Chilpancingo, 1813)
Que a escravidão se proscreva para sempre e o mesmo a distinção de castas, ficando todos iguais, e que só distinguirá a um americano de outro o vício e a virtude. Que as leis gerais compreendam a todos, sem exceção de corpos privilegiados; que o território de América se erija em república independente, cujos limites sejam os já fixados. |
| 📜 DOCUMENTO HISTÓRICO — Declaração de Independência do Império Mexicano (28 de setembro de 1821)
A Nação mexicana, que durante trezentos anos não teve vontade própria, nem livre uso de sua voz, deixa hoje a opressão em que viveu. […] Restituída então esta parte do Norte ao exercício de todos os direitos dados pelo Autor da Natureza e reconhecidos como inalienáveis e sagrados pelas nações civilizadas da Terra, em liberdade para constituir-se da maneira que mais convenha à sua felicidade… |
Compare os dois documentos:
- Quem assinou a Declaração de 1821: Morelos ou Iturbide? O que isso diz sobre o caráter da independência?
- A Declaração de 1821 menciona escravidão, castas ou redistribuição de terras? Compare com os Sentimentos da Nação de Morelos.
- Qual dos dois documentos representa uma ruptura mais profunda com a ordem colonial? Justifique.
- CRONOLOGIA
| ANO |
EVENTO |
| 1519–1521 |
Conquista do México por Hernán Cortés. Destruição de Tenochtitlan e início do Vice-reinado da Nova Espanha. |
| 1531 |
Aparição de Nossa Senhora de Guadalupe a Juan Diego, segundo a tradição. A imagem torna-se símbolo da religiosidade popular. |
| 1759–1788 |
Reinado de Carlos III. Reformas Bourbônicas intensificam impostos e substituem criollos por peninsulares nos cargos. |
| 1808 |
Invasão napoleônica da Espanha. Fernando VII preso. Crise de legitimidade chega ao México. |
| 16 set. 1810 |
Grito de Dolores: Hidalgo convoca camponeses. Início da guerra de independência com 80 mil insurgentes. |
| Set.–Out. 1810 |
Rebeldes tomam Celaya, Guanajuato e Valladolid. Hidalgo decreta abolição da escravidão e do tributo indígena. |
| 1811 |
Hidalgo capturado, excomungado e fuzilado. Sua cabeça exposta por dez anos na alhóndiga de Granaditas. |
| 1813 |
Congresso de Chilpancingo: Morelos apresenta os Sentimentos da Nação, propondo abolição da escravidão e das castas. |
| 1815 |
Morelos capturado, excomungado e fuzilado em dezembro. |
| 1820 |
Constituição liberal de Cádiz restaurada na Espanha. Iturbide negocia independência para proteger a ordem conservadora. |
| Fev. 1821 |
Plano de Iguala: Iturbide e Vicente Guerrero proclamam independência com três garantias. |
| 28 set. 1821 |
Declaração formal da independência do México pelo Exército Trigarante de Iturbide. |
| 1822 |
Iturbide se autoproclamou Agustín I, imperador do México. |
| 1823 |
López de Santa Anna derruba Iturbide e proclama a república. |
| 1910–1920 |
Revolução Mexicana: Zapata invoca Morelos como antepassado espiritual da luta camponesa por terras. |
| 1929–1939 |
Rivera e Orozco pintam os murais que moldam a memória oficial da independência mexicana. |
- QUEM FOI QUEM
Miguel Hidalgo y Costilla (1753–1811)
Miguel Hidalgo y Costilla nasceu em 8 de maio de 1753 em Pénjamo, Guanajuato. O Atlas Histórico o descreve como ‘sacerdote mestizo Miguel Hidalgo y Costilla, exrector de la Universidad de Valladolid’. Era homem culto, leitor das ideias iluministas proibidas pela Inquisição, que cultivava uvas, amoreiras e oliveiras em desafio às proibições coloniais. Aos 57 anos, sem experiência militar, tomou a decisão que mudou o continente. Foi excomungado, destituído do comando militar pelos próprios companheiros e finalmente traído por um terrateniente criollo antes de ser fuzilado. Sua cabeça ficou exposta dez anos na mesma alhóndiga que seus seguidores haviam invadido.
José María Morelos y Pavón (1765–1815)
José María Morelos y Pavón nasceu em 30 de setembro de 1765 em Valladolid. O Atlas Histórico descreve-o como ‘un mestizo nacido en la región de Michoacán, con conocimientos filosóficos, pero también militares, hijo de un humilde carpintero’. Havia trabalhado como tropeiro antes de estudar teologia. Quando soube do levante de Hidalgo, foi pessoalmente pedir instruções e recebeu a missão de subir o sul. Revelou um talento militar inesperado: ao contrário de Hidalgo, que conduzia massas sem disciplina, Morelos preferia menos homens mais treinados. ‘É mais poderosa sua ajuda lavrando a terra para nos dar o pão aos que lutamos’, escreveu. O estado e a cidade que levam seu nome são a única homenagem que o México pôde lhe dar.
Os artistas e muralistas mexicanos:
Diego Rivera (1886–1957)
Diego Rivera nasceu em Guanajuato em 8 de dezembro de 1886 e estudou pintura no México antes de passar mais de uma década na Europa, absorvendo cubismo e pós-impressionismo. Voltou ao México em 1921, convocado pelo Ministério da Educação para narrar a história mexicana ao povo nas paredes dos edifícios públicos. Marxista convicto, entendia a arte como instrumento político. Seu mural A Guerra de la Independencia, no Palácio Nacional, pintado entre 1929 e 1935, apresenta Hidalgo e Morelos como heróis populares da luta de classes. Era casado com Frida Kahlo.
Juan O’Gorman (1904–1982)
Juan O’Gorman nasceu em 6 de julho de 1904 na Cidade do México. Arquiteto e pintor, é uma das figuras mais originais do século XX mexicano. Como arquiteto, projetou a residência dupla de Rivera e Frida Kahlo em San Ángel (1931) e a Biblioteca Central da UNAM, cujas fachadas externas são cobertas por mosaicos em pedras naturais com a história do México. Como muralista, integra o que Vasconcellos (USP, 2005) identifica como segunda geração do muralismo. Seu Retablo de la Independencia (1960-1961), no Museu Nacional de História no Castillo de Chapultepec, é uma pintura enciclopédica que reúne dezenas de personagens da independência numa única composição de cerca de doze metros de largura. Diferentemente de Rivera, que escolhia lados claros, O’Gorman buscava sínteses mais complexas e abrangentes. Morreu em 18 de janeiro de 1982.
José Clemente Orozco (1883–1949)
José Clemente Orozco nasceu em 23 de novembro de 1883 em Zapotlán el Grande, Jalisco. Perdeu a mão esquerda em um acidente na adolescência. Sua visão da história era mais sombria do que a de Rivera: a violência e a tragédia eram, para ele, componentes inevitáveis de qualquer transformação histórica. Seu maior trabalho, o conjunto de afrescos no Hospício Cabañas em Guadalajara, declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, inclui O Homem em Chamas, afresco no teto da cúpula principal que representa a condição humana diante da história.
Frida Kahlo (1907–1954)
Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón nasceu em 6 de julho de 1907 em Coyoacán, Cidade do México. Filha de fotógrafo alemão de origem judaica e mãe mexicana mestiça. Aos seis anos contraiu poliomielite; aos dezoito, sobreviveu a um acidente de ônibus que fraturou sua coluna, pelve e clavícula e lhe causou dores crônicas pelo resto da vida. Começou a pintar durante a recuperação, fixando um espelho na cama para usar a si mesma como modelo. Tornou-se uma das artistas mais originais do século XX, conhecida pelos autorretratos que misturavam elementos indígenas, europeus e surrealistas para explorar dor, identidade e política. Era comunista, amiga de Trotski e casada com Rivera. Seus autorretratos com huipiles, flores e joias pré-colombianas eram uma afirmação política da identidade mexicana mestiça e indígena, o mesmo povo que Hidalgo e Morelos haviam liderado um século antes.
- PARA SABER MAIS: CURIOSIDADES
CHÁVEZ MORADO, José. Canto a Guanajuato (detalhe: cabeça enjaulada de Miguel Hidalgo). 1966. Mural. Museu Regional de Guanajuato, Alhóndiga de Granaditas, Guanajuato, México.
A CABEÇA ENGAIOLADA: O TERROR COLONIAL NO MURALISMO E NA MEMÓRIA MEXICANA
Entre as imagens mais perturbadoras da iconografia da Independência mexicana está a cabeça humana fechada dentro de uma jaula de ferro. A referência histórica é direta: em 1811, as forças realistas espanholas decapitaram Miguel Hidalgo e mais três líderes insurgentes (Allende, Aldama e Jiménez) e expuseram suas cabeças em jaulas de ferro nas quatro esquinas externas da Alhóndiga de Granaditas, em Guanajuato. Permaneceram ali por quase dez anos, até a consumação da independência em 1821.
A prática tinha fundamento jurídico no Antigo Regime europeu, especificamente no crime de lesa majestade, que previa penas exemplares capazes de apagar a dignidade do condenado diante da comunidade. A jaula cumpria duplo papel: simbólico, ao reduzir o insurgente à condição de animal capturado, e prático, ao proteger os restos da ação de aves de rapina, prolongando o efeito pedagógico do terror por anos.
Essa memória atravessou o tempo e chegou ao muralismo mexicano do século XX. José Chávez Morado, último dos grandes muralistas mexicanos, pintou em 1966 o mural Canto a Guanajuato, nos muros da própria escadaria da Alhóndiga de Granaditas. No painel central da obra, uma figura de rosto coberto sustenta nas mãos a jaula com a cabeça de Hidalgo, num gesto que evoca luto e sacrifício, não celebração heroica. Chávez Morado recupera ali a violência fundadora da nação como denúncia histórica, no mesmo espírito crítico que os grandes muralistas, Orozco entre eles, aplicaram à narrativa oficial da Independência.
MUSEO CASA DE HIDALGO. Pintura da cabeça decapitada de Miguel Hidalgo na jaula de ferro. Autor não identificado. Dolores Hidalgo, Guanajuato, México. Acervo permanente do museu, INAH.
A memória da cabeça enjaulada também sobrevive fora dos grandes murais públicos. No Museo Casa de Hidalgo, em Dolores Hidalgo, antiga residência do líder insurgente antes do levante de 1810, há uma pintura que representa diretamente a cabeça decapitada dentro da própria jaula de ferro, peça hoje incorporada ao discurso museográfico do local como testemunho da repressão colonial.
Episódios semelhantes ocorreram em outras partes da América colonial. No Peru, Túpac Amaru II teve o corpo esquartejado e a cabeça enviada a diferentes províncias rebeldes em 1781. No Brasil, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi enforcado e esquartejado em 1792, com a cabeça fixada em estaca na praça de Vila Rica. Os episódios revelam um mesmo repertório punitivo do Estado colonial ibérico contra a insurgência popular, repertório que a memória nacional latino-americana, décadas depois, recuperou como denúncia e não como simples curiosidade.
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EL CHAVO DEL OCHO E A HERANÇA COLONIAL
A Série Chaves (originalmente conhecida como ‘El Chavo del Ocho’), criada pelo mexicano Roberto Gómez Bolaños (o Chespirito) em 1971, se passa numa ‘vecindad’, um cortiço de classe baixa na Cidade do México. O Chavo (palavra mexicana para garoto, como moleque no Brasil) é um menino órfão que mora literalmente num barril no pátio. A Vila do Chavo, com seus moradores disputando comida e espaço, é uma imagem do México urbano popular do século XX, cujas raízes de desigualdade remontam diretamente à ordem colonial que Hidalgo e Morelos tentaram destruir e Iturbide preservou. Chespirito criou seus personagens observando os bairros populares da Cidade do México. |
LUCHA LIBRE: MÁSCARAS E IDENTIDADE
A lucha libre mexicana, com suas máscaras coloridas e movimentos acrobáticos, surgiu no México nos anos 1930, exatamente o período do muralismo e da construção da identidade nacional pós-revolucionária. Os luchadores cobrem o rosto com máscaras que os transformam em personagens. A máscara tem raízes nas tradições teatrais e rituais pré-colombianas. Perder a máscara em combate é a maior derrota: é perder a identidade. El Santo, Blue Demon, Mil Máscaras: heróis populares do mesmo país de Hidalgo e Morelos. |
O MILHO E A CIVILIZAÇÃO MESOAMERICANA
O México é o berço do milho. Os povos mesoamericanos domesticaram o milho há cerca de 9 mil anos a partir de uma gramínea selvagem. Para os astecas, o milho era sagrado: a humanidade havia sido criada a partir de uma massa de milho. Hoje o México tem mais de 60 variedades nativas, usadas em tacos, tortillas, tamales, pozole e na chicha. O chocolate (do náhuatl ‘xocolatl’), o tomate, o abacate, o chile e a baunilha também são contribuições mesoamericanas à alimentação mundial. |
FRIDA KAHLO E A IDENTIDADE MEXICANA
Frida Kahlo pintou a si mesma 55 vezes ao longo de sua vida, em autorretratos que são ao mesmo tempo confissões pessoais e declarações políticas. Ela se pintava com huipiles (blusas bordadas de origem zapoteca), tranças com flores e joias pré-colombianas: escolhas deliberadas que celebravam a cultura indígena num país que ainda discriminava seus povos originários. Quando um crítico americano a chamou de ‘surrealista mexicana’, ela respondeu: ‘Nunca pintei sonhos. Pintei minha própria realidade.’ Sua Casa Azul em Coyoacán é hoje o museu mais visitado do México. |

Biblioteca Central da UNAM, decorada por Juan O’Gorman
Filmografia:
LA VIRGEN que forjó una patria. Direção: Julio Bracho. Ciudad de México: Films Mundiales, 1942. 1 filme (90 min).
Sinopse: O filme retrata o início do movimento de independência mexicano, partindo da Conspiração de Querétaro e a proposta do padre Miguel Hidalgo de usar a imagem da Virgem de Guadalupe como símbolo unificador da luta contra o domínio espanhol. A obra destaca o papel da religiosidade popular como elemento de coesão entre os insurgentes.
EL PADRE Morelos. Direção: Miguel Contreras Torres. Ciudad de México: Hispano Continentales, 1942. 1 filme (105 min).
Sinopse: Em preto e branco, o filme mostra José María Morelos sendo enviado à igreja de San Agustín de Carácuaro em 1798, onde entra em conflito com as famílias ricas ao ajudar os necessitados. Mais tarde, Morelos une-se à causa insurgente, tornando-se um dos principais líderes da independência após a execução de Hidalgo.
EL RAYO del sur. Direção: Miguel Contreras Torres. Ciudad de México: Hispano Continentales, 1943. 1 filme (98 min).
Sinopse: Continuação direta de El Padre Morelos, este filme acompanha Morelos após ser nomeado “Chefe do Sul” por Hidalgo, documentando suas campanhas militares mais importantes, incluindo a tomada de Oaxaca e Acapulco, até sua captura, julgamento e execução pelas forças realistas em 1815.
MINA, viento de libertad. Direção: Antonio Eceiza. Coprodução: México; Cuba: Corporación Nacional Cinematográfica; Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos, 1977. 1 filme (110 min).
Sinopse: O filme narra a história de Francisco Javier Mina, um militar espanhol que, após se opor ao regime absolutista de Fernando VII, uniu-se ao movimento independentista mexicano. Mina liderou uma expedição para auxiliar Morelos, mas foi capturado e fuzilado em 1817.
HIDALGO, la historia jamás contada. Direção: Antonio Serrano. Ciudad de México: Pentagrama Films; OPUS, 2010. 1 DVD (110 min).
Sinopse: Produção elaborada para as comemorações do Bicentenário da Independência que se propos a humanizar o Padre Miguel Hidalgo, mostrando coisas menos heroicas, incluindo seus romances e sua personalidade festeira. O filme apresenta o líder insurgente não como um herói mitificado, mas como um homem complexo com virtudes e contradições.
HÉROES verdaderos. Direção: Carlos Kuri. Ciudad de México: Ánima Estudios, 2010. 1 DVD (87 min).
Sinopse: Filme de animação musical que segue dois jovens, um mestiço e um criollo, que se envolvem na luta insurgente. Ao longo da narrativa, encontram figuras históricas como Miguel Hidalgo, José María Morelos, Ignacio Allende e Josefa Ortiz de Domínguez, apresentando aos jovens espectadores os principais eventos e personagens da independência mexicana de forma didática e acessível.
MORELOS. Direção: Antonio Serrano. Intérpretes: Dagoberto Gama. Ciudad de México: FOPROCINE; Secretary of Culture, 2012. 1 DVD (100 min).
Sinopse: Produção que comemora os 200 anos do Sítio de Cuautla (1812), este filme explora a capacidade de José María Morelos não apenas como estrategista militar, mas como visionário político que organizou o Congresso de Chilpancingo e propôs as bases institucionais para uma futura República Mexicana independente, incluindo a abolição da escravatura e dos tributos indígenas.
Livros e artigos:
AZUELA, Mariano. Los de abajo. Ciudad de México: Fondo de Cultura Económica, 1916.
Embora trate da Revolução Mexicana (1910-1917) e não da Independência de 1810, este romance clássico é essencial para entender as profundas desigualdades sociais que o movimento independentista não conseguiu resolver. A narrativa acompanha um grupo de camponeses e mestiços que se juntam à luta armada, revelando a violência, as traições e os ideais frustrados de justiça agrária. Para alunos do ensino médio, a obra oferece um contraponto realista à visão heroica e oficial da história mexicana.
PAZ, Octavio. El laberinto de la soledad. Ciudad de México: Cuadernos Americanos, 1950.
Neste ensaio filosófico e antropológico fundamental, o Nobel mexicano dedica capítulos específicos à análise da formação do imaginário nacional mexicano, incluindo o significado do “Grito de Dolores” e a figura do padre Miguel Hidalgo. Paz argumenta que a Independência foi um movimento ambíguo: uma ruptura política com a Espanha, mas também uma tentativa frustrada de criar uma identidade própria, deixando feridas históricas que só seriam encaradas no século XX. A leitura é recomendada para estudantes que buscam um desafio intelectual e uma interpretação profunda da psicologia histórica mexicana.
EL COLEGIO DE MÉXICO. La independencia. 1808-1821. In: Nueva historia mínima de México. Ciudad de México: El Colegio de México, 2004.
Esta obra acadêmica de referência, sintetiza de forma clara e concisa as três fases da guerra de independência: o movimento popular e violento liderado por Hidalgo e Morelos, a repressão realista e a consumação conservadora com Agustín de Iturbide. O texto é pequeno, baseado nas fontes primárias mais recentes e explica com precisão os interesses econômicos e de classe que dividiam criollos, espanhóis, indígenas e mestiços.
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ATIVIDADES
Múltipla Escolha
A1.
O Grito de Dolores (1810), liderado pelo padre Hidalgo, diferiu dos movimentos independentistas de outras regiões da América espanhola principalmente porque:
(a) Foi planejado por uma junta de militares criollos com apoio britânico.
(b) Limitou-se a exigir reformas administrativas sem romper com a Espanha.
(c) Mobilizou camponeses, trabalhadores de minas e indígenas, assumindo o caráter de revolta social das classes populares.
(d) Contou com apoio imediato das elites criollas, que financiaram o exército rebelde.
(e) Recebeu apoio militar direto da França napoleônica.
A2.
A independência proclamada por Iturbide em 1821 é considerada ‘conservadora’ porque:
(a) Manteve aliança com a Espanha e apenas reformou a administração colonial.
(b) Preservou a concentração de terras, os privilégios da Igreja e as desigualdades sociais da ordem colonial.
(c) Declarou o México como monarquia constitucional nos moldes do modelo britânico.
(d) Aboliu o sistema de castas e redistribuiu terras das haciendas entre os camponeses.
(e) Concedeu autonomia aos povos indígenas para governarem seus próprios territórios.
A3.
Os murais que contam a história da independência do México são fontes históricas importantes porque:
(a) São reproduções fiéis e objetivas dos eventos da independência, documentados pelos artistas em tempo real.
(b) Expressam interpretações do passado produzidas em um contexto político específico, revelando disputas de memória sobre a nação mexicana.
(c) Foram encomendados por historiadores acadêmicos para ilustrar obras de referência.
(d) Representam com precisão fotográfica rostos e uniformes dos personagens históricos.
(e) São documentos imparciais porque os artistas eram estrangeiros sem interesse político.
A5.
Nos Sentimentos da Nação (1813), Morelos propôs a extinção do sistema de castas. Essa proposta era radical porque:
(a) O sistema era garantido pela Constituição de Cádiz e sua abolição violaria o direito internacional.
(b) Significaria igualdade jurídica entre criollos, mestiços, indígenas e negros libertos, destruindo os fundamentos da ordem social colonial baseada na hierarquia racial.
(c) A extinção das castas era apoiada pelos peninsulares, que viam no sistema uma ameaça à sua autoridade.
(d) O sistema havia sido abolido na prática pelas Reformas Bourbônicas.
(e) A proposta era radical apenas do ponto de vista religioso.
Questões de Concurso
C1. (FUVEST – 2023)
“A Exposição Internacional do Centenário de 1922 no Rio de Janeiro constituiu uma versão brasileira grandiosa, embora anacrônica, das exposições do século XIX, destinadas a celebrar o ideal nacional. Para essa mostra o México enviou uma importante delegação, com farto material de exposição, tendo inclusive construído um pavilhão especial para abrigar seus produtos. José Vasconcelos (1881-1952), o filósofo e intelectual mexicano de maior destaque (…), chefiou a delegação mexicana. No final da exposição, o México deixou no Rio um Cuauhtémoc carioca olhando para a baía da Guanabara, e Vasconcelos partiu levando uma bagagem de mitos nacionais brasileiros (…)”. (TENORIO TRILLO, Mauricio. “Um Cuahtémoc Carioca: comemorando o Centenário da independência do Brasil e a raça cósmica”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 7, n. 14, 1994.)
No ano seguinte à celebração do centenário da independência do México, o governo mexicano enviou ao Brasil uma delegação para participar dos festejos do centenário da independência brasileira e escolheu, para simbolizar seu país, a figura de Cuahtémoc, imperador asteca que morreu na luta de resistência contra os conquistadores espanhóis.
A partir do excerto, é correto atestar a seguinte semelhança entre os dois países:
a) A defesa da Revolução Mexicana e das ideias de supremacia indígena.
b) A valorização de símbolos nacionais e do conhecimento mútuo na América Latina.
c) O reconhecimento da superioridade do passado mexicano associado aos astecas.
d) A dissolução das identidades nacionais em favor das identidades continentais.
e) A rivalidade entre os países latino-americanos na forma de celebrar os Centenários.
C2. (UNESP – 2021)
Independência da América Espanhola
O processo de independência na América espanhola, ocorrido nas primeiras décadas do século XIX,
a) contou com participação ativa e direta dos Estados Unidos, que buscavam ampliar sua zona de influência política na América.
b) envolveu projetos políticos e setores sociais variados, que se confrontaram no momento de constituição dos novos Estados.
c) manteve a unidade territorial das áreas antes controladas pela Espanha, e os novos Estados organizaram-se numa federação.
d) resultou no afastamento definitivo dos novos Estados em relação ao antigo colonizador e na divisão das grandes propriedades rurais entre os camponeses sem terra.
e) derivou da iniciativa das burguesias locais, que defendiam a igualdade social como base da organização social dos novos Estados.
GABARITO
Questões de múltipla escolha (A) e de concurso (C). As discursivas (B) não têm gabarito único.
| QUESTÃO |
RESP. |
JUSTIFICATIVA |
| A1 |
C |
O exército de Hidalgo chegou a 80 mil pessoas formadas por indígenas, peões, trabalhadores de minas e camponeses pobres mobilizados por promessas concretas de terra e abolição do tributo. Nenhum outro líder independentista hispano-americano mobilizou essa base social. |
| A2 |
B |
Hidalgo prometeu devolver terras comunitárias e suprimir o tributo. Somado à alta do preço do milho, isso empurrou indígenas, peões e trabalhadores de minas a se juntar à insurreição. |
| A3 |
B |
Iturbide negociou independência para proteger privilégios da Igreja e das elites criollas. A Declaração de 1821 não menciona escravidão, castas ou reforma agrária, diferentemente dos Sentimentos da Nação de Morelos (1813). |
| A4 |
B |
Os murais são fontes históricas precisamente por revelarem como o México pós-revolucionário queria narrar seu passado. São documentos sobre os anos 1920-1930 tanto quanto sobre 1810-1821. Fonte: Guia do Professor, 2025. |
| A5 |
B |
O sistema de castas era o fundamento jurídico da desigualdade colonial, definindo direitos conforme a origem racial. Abolir as castas significaria igualdade jurídica plena, destruindo a base legal dos privilégios dos proprietários. |
| C1 |
B |
A questão aborda as comemorações dos centenários das independências do México (1821) e do Brasil (1822). Em 1922, o México enviou uma delegação chefiada pelo intelectual José Vasconcelos ao Rio de Janeiro, presenteando o Brasil com uma estátua de Cuauhtémoc, imperador asteca que resistiu aos conquistadores espanhóis. |
| C2 |
B |
Os movimentos de independência na América espanhola resultaram na fragmentação dos antigos vice-reinados e na formação de diversas repúblicas. As elites locais eram heterogêneas e disputavam projetos políticos distintos: grupos conservadores (defensores de privilégios tradicionais) versus grupos liberais (propositores de reformas). Essas disputas geraram guerras civis nas primeiras décadas do século XIX, como o conflito na Argentina entre Unitários (centralização em Buenos Aires) e Federalistas (autonomia das províncias). |
- ATIVIDADES PARA O CADERNO
| 📓 HIDALGO VS. MORELOS VS. ITURBIDE
Monte uma tabela comparando os três projetos de independência: o que cada um propunha para escravidão, castas, terras e forma de governo. |
📓 ANÁLISE DE MURAL
Pesquise uma imagem do mural de Rivera no Palácio Nacional. Descreva o que você vê: quais personagens aparecem? Como são retratados ricos e pobres? O que Rivera queria dizer? |
| 📓 CARTA DE MORELOS AOS CRIOLLOS
Escreva uma carta de Morelos endereçada aos proprietários de terra criollos em 1813, explicando por que eles deveriam apoiar os Sentimentos da Nação. |
📓 FRIDA E A IDENTIDADE MEXICANA
Pesquise um autorretrato de Frida Kahlo. Descreva os elementos indígenas que ela usa. Como esses elementos se relacionam com a valorização da identidade mexicana após a independência? |
| 📓 LINHA DO TEMPO ILUSTRADA
Monte uma linha do tempo ilustrada da independência mexicana de 1810 a 1823. Para cada evento, faça um pequeno desenho ou símbolo que represente o acontecimento. |
📓 EL CHAVO E A DESIGUALDADE
Assista a um episódio de Chaves, El Chavo del Ocho. Anote quais personagens são pobres e ricos. Como a desigualdade aparece no humor da série? Isso tem relação com o que você estudou? |
Anexos:
Mural de O’Gorman preto e branco para pintar
Mural de O’Gorman colorido
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