O Império do Brasil nasceu maior do que o Brasil de hoje. Uma província chamada Cisplatina, o atual Uruguai, havia sido anexada em 1821. Em abril de 1825, um pequeno grupo de exilados atravessou o rio Uruguai e deu início a uma guerra de três anos, que consumiu boa parte do orçamento imperial e terminou sem vencedor claro. O resultado foi um país novo no mapa e um imperador cada vez mais isolado no Rio de Janeiro.
A Banda Oriental
O território do atual Uruguai era chamado de Banda Oriental, a margem leste do rio Uruguai. Eram campos abertos, com grandes rebanhos de gado e uma população pequena de criadores, peões, indígenas, pessoas escravizadas e libertas. Portugal e Espanha disputaram a região durante todo o período colonial: a Colônia do Sacramento, fundada pelos portugueses em 1680 diante de Buenos Aires, mudou de mãos várias vezes, e Montevidéu foi fundada pelos espanhóis em 1724 para conter esse avanço.
A partir de 1811, José Gervasio Artigas liderou um movimento que combatia a Espanha e também o domínio de Buenos Aires. Em 1815, seu regulamento de terras distribuiu campos a pobres, indígenas e libertos, proposta que assustou proprietários do Prata e do Rio de Janeiro.
O nome já é um ponto de vista Cisplatina quer dizer deste lado do Prata. Deste lado em relação a quem? O nome foi escolhido a partir do Rio de Janeiro. Quem vivia ali falava em Banda Oriental ou Província Oriental.
Por que o Império queria aquele território
Em 1816, tropas portuguesas comandadas por Carlos Frederico Lecor invadiram a Banda Oriental. Montevidéu caiu em 1817 e Artigas, derrotado em 1820, exilou-se no Paraguai. Em julho de 1821, um congresso reunido em Montevidéu sob ocupação militar aprovou a anexação. Depois da independência, as tropas portuguesas resistiram em Montevidéu até 1824, quando a província passou inteiramente ao Império.
Os interesses eram concretos. Quem controlasse o estuário do Prata controlava o comércio da região e o acesso fluvial ao interior do continente, até Mato Grosso. O gado dos campos orientais abastecia as charqueadas, e o charque alimentava sobretudo as pessoas escravizadas das fazendas brasileiras. Estancieiros do Rio Grande do Sul tinham terras e rebanhos do outro lado da fronteira.
1825: os Trinta e Três Orientais
El Juramento de los Treinta y Tres Orientales, de Juan Manuel Blanes. Óleo sobre tela, 1875 a 1878. Museo Juan Manuel Blanes, Montevidéu. A cena representa o desembarque de 19 de abril de 1825 na praia da Agraciada. Pintada cinquenta anos depois, transformou em imagem fundadora da nação uruguaia o episódio que no Brasil abriu a Guerra da Cisplatina.
Em 19 de abril de 1825, exilados orientais liderados por Juan Antonio Lavalleja atravessaram o rio Uruguai. O grupo entrou para a memória uruguaia como os Trinta e Três Orientais, embora as listas de participantes variem. Fructuoso Rivera, que servia ao Império, mudou de lado e levou tropas consigo. Em 25 de agosto, um congresso na vila de Florida declarou nula a anexação ao Brasil e aprovou a união às Províncias Unidas do Rio da Prata. Buenos Aires aceitou a incorporação, e em 10 de dezembro de 1825 o Império declarou guerra.
A guerra no campo e no mar
Em terra predominou a guerra de cavalaria em campo aberto; no mar, a esquadra imperial bloqueou o porto de Buenos Aires.
O Império não retomou o campo, e os adversários não tomaram Montevidéu nem a Colônia. A guerra virou desgaste.
Embarque, na Praia Grande, das tropas destinadas ao bloqueio de Montevidéu, de Thierry Frères e Jean-Baptiste Debret. Gravura, 1839.
A guerra como afirmação da nação
O historiador João Paulo Pimenta lembra que esta foi a primeira guerra internacional do Brasil independente. Jornais do Rio de Janeiro e de Buenos Aires trocaram insultos e afirmações de superioridade, e a imprensa governista chegou a apresentar D. Pedro I como a própria encarnação da nação. Para Pimenta, guerras têm essa capacidade: fazem gente até então indiferente levar a sério a ideia de pertencer a uma nação, diante de um inimigo apontado como ameaça.
O mesmo autor, em seu estudo sobre o Prata, mostra que ser brasileiro, argentino ou oriental eram identidades ainda não consolidadas. Muitos moradores da fronteira transitavam entre os lados por parentesco ou negócio, como o próprio Rivera, que serviu ao Império antes de combatê-lo.
Quem foi obrigado a lutar
O Império não tinha exército numeroso nem sistema de alistamento, e a Guarda Nacional só seria criada em 1831. O governo recorreu ao recrutamento forçado, capturando homens nas ruas, festas e estradas. O peso recaiu sobre homens livres pobres, muitos pretos e pardos, sem proteção de algum senhor ou chefe local. O historiador Hendrik Kraay mostrou como cor e condição social definiam quem ia para a guerra. Homens escravizados também foram enviados, com promessa de alforria nem sempre cumprida.
Faltando soldados, o governo contratou alemães e irlandeses com promessas de terra e salário. As condições foram muito piores do que o prometido, e em junho de 1828 esses soldados se amotinaram no Rio de Janeiro, com dias de confronto nas ruas da capital. Esse episódio ficou conhecido como Revolta dos Mercenários.
O custo econômico
A guerra drenou um Estado que já nascera endividado pelo empréstimo tomado para indenizar Portugal. Para pagar as tropas, o governo emitiu papel-moeda e ampliou a circulação de moedas de cobre, muitas falsificadas. Os preços subiram e o primeiro Banco do Brasil foi liquidado em 1829.
A Guerra bloquiou a navegação do Prata também irritou negociantes britânicos, e Londres passou a pressionar por um acordo.
A paz de 1828 e o Uruguai
A negociação, com mediação britânica de Lord Ponsonby, propôs um Estado independente entre os dois vizinhos, o que garantiria a navegação do estuário. A Convenção Preliminar de Paz foi assinada no Rio de Janeiro em 27 de agosto de 1828, e o Estado Oriental do Uruguai aprovou sua primeira Constituição em 1830. Nenhum representante oriental participou das negociações.
No Brasil, como observa Miriam Dolhnikoff, o acordo foi visto como derrota: anos de gastos, mortes e alta do custo de vida para, no fim, perder uma província. O desgaste recaiu sobre o imperador.
Documentos históricos
Convenção Preliminar de Paz, Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1828
Artigo 1º. Sua Majestade o Imperador do Brasil declara a Província de Montevidéu, hoje chamada Cisplatina, separada do território do Império do Brasil, para que possa constituir-se em Estado livre e independente de toda e qualquer nação, sob a forma de governo que julgar conveniente aos seus interesses, necessidades e recursos.
Reflexões sobre as coisas do Brasil, jornal Triunfo da legitimidade contra facção de anarquistas, Rio de Janeiro, 1826
A Presença de D. Pedro I é a explicação do milagre: sem ele o Brasil ofereceria hoje montões de ruínas.
Trecho reproduzido em: PIMENTA, Formação da nação brasileira, 2024.
Para analisar: quem toma a decisão sobre o território no artigo 1º? Por que um jornal governista, em plena guerra, associaria a sobrevivência do Brasil à pessoa do imperador?
Cronologia
Quem é quem
José Gervasio Artigas (1764 a 1850). Líder oriental que combateu a Espanha e o domínio de Buenos Aires. Derrotado em 1820, viveu trinta anos exilado no Paraguai. É o principal herói nacional uruguaio.
Juan Antonio Lavalleja (1784 a 1853). Liderou o desembarque de 1825 e venceu em Sarandi.
Fructuoso Rivera (1784 a 1854). Serviu ao Império, mudou de lado em 1825 e foi o primeiro presidente do Uruguai.
Carlos Frederico Lecor (1764 a 1836). Oficial português que comandou a invasão de 1816 e governou a Cisplatina.
Felisberto Caldeira Brant, Marquês de Barbacena (1772 a 1842). Diplomata que negociou o reconhecimento da independência em Londres e comandou o exército no Passo do Rosário.
Para saber mais
Charque para alimentar escravizados A carne salgada e seca dos campos do sul se conservava sem refrigeração e abastecia a alimentação de pessoas escravizadas nas fazendas de café e açúcar. O interesse pela Cisplatina estava ligado à manutenção do sistema escravista.
Glossário
- Estuário – Foz larga de um rio onde a água doce encontra o mar, como a do rio da Prata.
- Charque – Carne bovina salgada e seca ao sol.
- Charqueada – Estabelecimento onde se produzia o charque, com uso intenso de trabalho escravizado.
- Bloqueio naval – Uso de navios de guerra para impedir a entrada e a saída de embarcações de um porto.
- Recrutamento forçado – Captura de homens para servir no exército contra a vontade deles.
- Mercenário – Soldado contratado por pagamento para lutar em guerra de outro país.
- Mediação – Intervenção de um terceiro para negociar um acordo entre partes em conflito.
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1. A incorporação da Banda Oriental, em 1821, ocorreu:
a) por plebiscito.
b) por decisão de um congresso em Montevidéu sob ocupação militar, sem parte das lideranças locais.
c) por acordo com Artigas.
d) pela paz de 1828.
2. Entre os interesses do Império na Cisplatina estava:
a) o acesso a minas de ouro e prata.
b) a instalação de fábricas britânicas.
c) o controle do estuário do Prata e o abastecimento de charque para a alimentação de pessoas escravizadas.
d) a abolição da escravidão nos campos orientais.
3. Sobre o Passo do Rosário, é correto afirmar que:
a) foi vitória incontestável do Império.
b) os dois lados reivindicaram a vitória, e as tropas imperiais recuaram.
c) foi um combate naval.
d) encerrou a guerra.
4. O recrutamento na Guerra da Cisplatina caracterizou-se por:
a) alistamento voluntário e bem pago.
b) convocação pela Guarda Nacional.
c) recrutamento forçado de homens livres pobres, pretos e pardos, envio de escravizados e contratação de estrangeiros.
d) participação só de oficiais europeus.
5. A Convenção de 1828 estabeleceu que:
a) a Cisplatina voltaria às Províncias Unidas.
b) o território continuaria brasileiro com autonomia.
c) a província seria um Estado independente, solução mediada pela Grã-Bretanha e negociada sem representantes orientais.
d) a Grã-Bretanha administraria a região.
6. (Discursiva) Indique três consequências da guerra que contribuíram para a crise de D. Pedro I.
Ver gabarito
1. B. A anexação ocorreu com tropas na cidade, o que sempre pesou contra sua legitimidade.
2. C. O Prata era rota comercial decisiva e o charque sustentava a alimentação no cativeiro.
3. B. A historiografia trata o resultado como indefinido.
4. C. A Guarda Nacional só surgiria em 1831; o peso recaiu sobre os mais pobres.
5. C. O artigo 1º declarou a província separada para formar um Estado livre.
6. Resposta pessoal: endividamento, crise monetária, fim do Banco do Brasil, revolta dos mercenários, perda da província.
Resumo
- A Banda Oriental foi invadida em 1816 e anexada em 1821 com o nome de Cisplatina.
- O Império queria controlar o estuário do Prata e o gado que abastecia as charqueadas.
- Em 1825, os Trinta e Três Orientais iniciaram a revolta apoiada por Buenos Aires.
- A guerra (1825 a 1828) não teve vencedor e custou caro em dinheiro e vidas, com recrutamento forçado e mercenários.
- A mediação britânica criou o Uruguai em 1828, sem participação oriental.
- No Brasil, a perda foi vista como derrota e aumentou o desgaste de D. Pedro I.
Referências
- PIMENTA, João Paulo. Formação da nação brasileira. São Paulo: Contexto, 2024.
- PIMENTA, João Paulo. Estado e nação no fim dos impérios ibéricos no Prata, 1808-1828. São Paulo: Hucitec, 2002.
- DOLHNIKOFF, Miriam. História do Brasil Império. São Paulo: Contexto, 2017. (História na Universidade).
- FREGA, Ana. Pueblos y soberanía en la revolución artiguista. Montevidéu: Ediciones de la Banda Oriental, 2007.
- DIAS, Adriana Machado; GRINBERG, Keila; PELLEGRINI, Marco. Jovem Sapiens: história, 8º ano. São Paulo: Scipione, 2022.