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Segunda-feira, 5 de outubro de 2026
ANO I — RIO DE JANEIRO Segunda-feira, 5 de outubro de 2026 EDIÇÃO ESPECIAL — HISTÓRIA
Ilustração Felipe Deveza
Professor Felipe Deveza

Repositório de História e Materiais Didáticos

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A Confederação do Equador: A proclamação de uma república independente no Norte (1824)

Em 2 de julho de 1824, quatro meses depois da outorga da Constituição no Rio de Janeiro, o governo de Pernambuco rompeu com o imperador. A república proclamada naquele dia adotou provisoriamente a Constituição da Colômbia, chamou as províncias vizinhas e resistiu por pouco mais de dois meses. A repressão foi feita para servir de exemplo: um frade que escrevia jornal foi fuzilado e a província perdeu parte do território como castigo.

Pernambuco antes de 1824

A Confederação do Equador tem raízes antigas. Na guerra contra os holandeses, entre 1645 e 1654, as forças locais tiveram papel decisivo, e os vencedores construíram a memória de uma terra conquistada pelos próprios moradores, que por isso mereceria autonomia. Em 1710, a Guerra dos Mascates opôs senhores de engenho de Olinda a comerciantes portugueses do Recife. Em 1817, uma revolução proclamou uma república que durou cerca de setenta e quatro dias e terminou com execuções e com a perda da Comarca das Alagoas. Em 1821, o movimento de Goiana derrubou o governador nomeado por Lisboa.

Cada episódio deixou memória, pessoas, redes de amizade e experiência política. Frei Caneca e Manuel de Carvalho Paes de Andrade, os nomes centrais de 1824, tinham participado da revolução de 1817 e pagado por isso com prisão e exílio.

Nordeste não existia em 1824 Os documentos da época falam em províncias do Norte. A palavra Nordeste como nome de região só se firmou no século XX, e o historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior mostrou como essa ideia foi construída a partir das secas, das políticas públicas e da literatura. Usá-la para 1824 é um anacronismo.

Impostos, açúcar e algodão

A economia pernambucana dependia do açúcar da zona da mata, com preços instáveis, e do algodão do agreste e do sertão, que começava a perder mercado para o sul dos Estados Unidos. Toda essa produção se apoiava no trabalho escravizado, e Recife era um dos grandes portos de desembarque de africanos. O comércio de exportação estava em boa parte nas mãos de negociantes portugueses, o que alimentava rivalidades com proprietários e comerciantes locais.

Havia ainda o problema fiscal. Parte importante da arrecadação seguia para o Rio de Janeiro, e os presidentes de província passaram a ser nomeados pela Corte. Para muitos pernambucanos, a independência parecia ter trocado uma capital distante por outra.

A crise de 1823 e 1824

Em dezembro de 1823, semanas depois do fechamento da Constituinte, os pernambucanos escolheram Manuel de Carvalho Paes de Andrade para presidir a província. O governo imperial havia indicado Francisco Pais Barreto, o Morgado do Cabo, ligado aos grandes senhores de engenho. Manuel de Carvalho recusou-se a entregar o cargo, e uma disputa administrativa virou questão de princípio: quem escolhe o governo de uma província, ela própria ou a Corte?

Em março de 1824 chegou a Carta outorgada, com a ordem de jurá-la. Frei Caneca, que desde dezembro publicava o Tífis Pernambucano, analisou o texto e recomendou a recusa: uma Constituição dada pelo mesmo governante que dissolvera a Constituinte poderia ser retirada por ele quando quisesse. A esquadra imperial chegou a partir para o Recife, mas voltou ao Rio diante de rumores de uma frota portuguesa, o que deu tempo aos pernambucanos.

2 de julho de 1824: a proclamação

Manuel de Carvalho anunciou o rompimento e proclamou a Confederação do Equador, uma república federativa das províncias próximas à linha do equador, sob o lema Religião, Independência, União e Liberdade. Até que um congresso escrevesse uma Constituição própria, seria adotada a da Colômbia, aprovada em 1821 sob a liderança de Simón Bolívar. A escolha mostra que os líderes pernambucanos acompanhavam a experiência republicana da América espanhola.

Bandeira da Confederação do Equador
Bandeira da Confederação do Equador, com o lema Religião, Independência, União e Liberdade.
O que defendiam Conteúdo
República Fim da monarquia hereditária e do Poder Moderador.
Federação Províncias com governo e leis próprias, unidas por um pacto voluntário.
Governo eleito Presidentes de província escolhidos localmente.
Constituição votada Um congresso constituinte no lugar do texto outorgado.
Liberdade de imprensa Circulação livre de jornais e panfletos.

Miriam Dolhnikoff observa que esses homens não eram separatistas desde sempre. Tinham apoiado a Constituinte e aceitavam até a monarquia, desde que com federação. A separação veio depois da derrota de seu projeto em 1823 e 1824. João Paulo Pimenta acrescenta que os confederados falavam em defesa da Constituição e da nação brasileira, embora o governo do Rio os tratasse como ameaça de desmembramento.

Províncias envolvidas e movimentos das tropas republicanas e imperiais em 1824. Fonte: STOÉ Brasil 500 anos: atlas histórico e Boulos Jr., História, sociedade & cidadania, 8º ano.

Quem aderiu e quem recuou

Gravura de Rugendas com reunião de homens em um alpendre
Junta em Pernambuco, litografia de Johann Moritz Rugendas publicada em Viagem pitoresca através do Brasil (Paris, 1835), a partir de desenho feito entre 1822 e 1824. Representa uma reunião de junta governativa pernambucana, do ciclo político que vai de 1821 à Confederação do Equador.

O movimento recebeu adesões no Ceará, na Paraíba, no Rio Grande do Norte e em parte do Piauí. No Ceará, Tristão Gonçalves de Alencar Araripe assumiu o governo, com participação do padre Gonçalo Inácio de Loiola Albuquerque e Melo, o Padre Mororó.

A base social era variada: proprietários insatisfeitos com os impostos, comerciantes brasileiros em conflito com os portugueses, padres, militares, profissionais liberais e muitos artesãos e trabalhadores urbanos do Recife, entre eles pessoas pretas e pardas livres. Quando a mobilização popular cresceu, parte dos grandes proprietários recuou. O historiador Marcus Carvalho mostrou que o medo de que a agitação chegasse às pessoas escravizadas freou as elites locais.

A liberdade de quem?A Confederação falava em liberdade o tempo todo, mas não propôs o fim da escravidão. Seus líderes eram em boa parte proprietários de pessoas escravizadas. Essa contradição aparece em quase todos os movimentos liberais americanos da época.

A repressão

O Rio de Janeiro reagiu por mar e por terra. A esquadra foi comandada por Thomas Cochrane, o mesmo oficial britânico que lutou pela independência no Norte, e as tropas terrestres por Francisco de Lima e Silva, pai do futuro Duque de Caxias. Recife caiu em 17 de setembro de 1824. Manuel de Carvalho fugiu para a Inglaterra. No Ceará, Tristão Gonçalves morreu em combate em outubro, e Frei Caneca, capturado no sertão em novembro, foi levado ao Recife.

Uma comissão militar julgou os presos entre outubro de 1824 e abril de 1825. O número de condenações à morte varia conforme a fonte. Frei Caneca foi fuzilado em 13 de janeiro de 1825: condenado à forca, acabou morto a tiros porque os carrascos se recusaram a enforcar um religioso. Padre Mororó foi executado no Ceará no mesmo ano.

O castigo territorial

Por decreto de 7 de julho de 1824, a Comarca do Rio de São Francisco foi retirada de Pernambuco e passada a Minas Gerais, e depois à Bahia. Corresponde hoje ao oeste baiano. Era a segunda perda em sete anos, depois das Alagoas em 1817. Reduzir o território diminuía a arrecadação e servia de aviso às outras províncias.

Como a historiografia lê a Confederação

Por muito tempo o movimento foi contado como explosão de nativismo. Evaldo Cabral de Mello, em A outra independência, analisa o federalismo pernambucano de 1817 a 1824 como um projeto político coerente: havia duas propostas de país em disputa, uma centralizada no Rio de Janeiro e outra federativa, e a segunda perdeu. Denis Bernardes usou a ideia de patriotismo constitucional para mostrar que, em Pernambuco, a lealdade se dirigia ao pacto constitucional e não à pessoa do monarca. A questão federativa voltaria no Ato Adicional de 1834, nas revoltas regenciais e na Revolução Praieira de 1848.

Documento histórico

Pintura de Frei Caneca amarrado diante do pelotão
A execução de Frei Caneca, de Murillo La Greca. Óleo sobre tela, 1924. Cem anos depois do movimento, o frade já era lembrado como mártir.

Frei Caneca, sobre o projeto de Constituição, Recife, 1824

“Sendo a nossa primeira e principal questão, em que temos empenhado nossos esforços, brio e honra, a emancipação e independência de Portugal, esta não se acha garantida no projeto com aquela determinação e dignidade necessária.”  Trecho em que Caneca justifica a recusa em jurar a Carta outorgada.

Cronologia

Data Acontecimento
1645 a 1654 Guerra contra a ocupação holandesa em Pernambuco.
1817 Revolução Pernambucana; perda da Comarca das Alagoas.
1821 Movimento de Goiana derruba o governador nomeado por Lisboa.
Dez 1823 Manuel de Carvalho assume a presidência; Caneca lança o Tífis Pernambucano.
Mar 1824 Chega a Carta outorgada com a exigência de juramento.
2 jul 1824 Proclamação da Confederação do Equador.
7 jul 1824 Decreto retira a Comarca do Rio de São Francisco de Pernambuco.
17 set 1824 Queda do Recife; fuga de Manuel de Carvalho.
Out e nov 1824 Morte de Tristão Gonçalves; captura de Frei Caneca.
13 jan 1825 Fuzilamento de Frei Caneca no Recife.
1834 Ato Adicional atende em parte a demanda federativa.

Quem é quem

Frei Joaquim do Amor Divino Caneca (1779 a 1825). Filho de um tanoeiro, fabricante de barris, do Recife. Frade carmelita, professor de retórica e geometria, participou de 1817 e dirigiu o Tífis Pernambucano. Fuzilado aos 45 anos.
Manuel de Carvalho Paes de Andrade (1774 a 1855). Participou de 1817, presidiu Pernambuco desde dezembro de 1823 e proclamou a Confederação. Fugiu para a Inglaterra, voltou após 1831 e foi senador.
Tristão Gonçalves de Alencar Araripe (1789 a 1824). Governou o Ceará em nome da Confederação e morreu em combate. Era tio do escritor José de Alencar.
Thomas Cochrane (1775 a 1860). Oficial naval britânico contratado pelo Brasil. Lutou nas independências do Chile, do Peru e do Brasil e comandou o bloqueio do Recife em 1824.
Francisco de Lima e Silva (1785 a 1853). Comandou as tropas terrestres contra a Confederação e, em 1831, integrou as regências.

Videos

Para saber mais

A frase da caneca Circula a frase quem bebe da minha caneca tem sede de liberdade, atribuída ao frade. Não há registro seguro de que ele a tenha dito ou escrito, o que faz dela um bom exemplo de como a memória popular constrói personagens.
Território como puniçãoPernambuco perdeu as Alagoas depois de 1817 e a Comarca do Rio de São Francisco depois de 1824. O mapa atual do estado é, em parte, resultado dessas duas derrotas políticas.

Glossário

Confederação – União de territórios com grande autonomia, ligados por um pacto.
República – Forma de governo em que o chefe de Estado é escolhido por eleição e não herda o cargo.
Comarca – Divisão territorial de uma província, usada na administração da justiça.
Comissão militar – Tribunal formado por oficiais para julgar crimes políticos de forma rápida.
Nativismo – Valorização da terra natal contra os de fora. Termo usado pela historiografia antiga para explicar o movimento.
Anacronismo – Atribuir a uma época ideias ou palavras de outra.

Questões

1. O estopim imediato da Confederação do Equador foi:

a) o tratado de reconhecimento da independência por Portugal.

b) a recusa de Pernambuco em jurar a Constituição outorgada e o conflito sobre quem presidiria a província.

c) a abolição da escravidão nas províncias do Norte.

d) a derrota na Guerra da Cisplatina.

2. A Confederação adotou provisoriamente a Constituição da Colômbia porque:

a) a Colômbia enviou tropas ao Recife.

b) era exigência britânica.

c) seus líderes viam na experiência republicana hispano-americana um modelo mais avançado.

d) o texto colombiano abolia a escravidão.

3. Sobre a base social do movimento, é correto afirmar que:

a) era formada só por senhores de engenho.

b) reunia proprietários, comerciantes, padres, militares e setores populares urbanos, o que gerou tensões internas.

c) contava apenas com pessoas escravizadas.

d) era composta por comerciantes portugueses.

4. A separação da Comarca do Rio de São Francisco funcionou como:

a) concessão aos revoltosos.

b) medida para aumentar a arrecadação de Pernambuco.

c) punição que reduzia território e receita e servia de aviso.

d) exigência da Constituição.

5. Para Evaldo Cabral de Mello, o federalismo pernambucano:

a) foi explosão emocional sem projeto.

b) era um projeto político coerente, derrotado pela alternativa centralizada do Rio.

c) queria restaurar o domínio português.

d) surgiu só em 1824.

6. Usar Nordeste para 1824 é anacronismo porque:

a) as províncias ficavam no Sul.

b) a região tinha outro nome oficial.

c) a ideia de Nordeste só se firmou no século XX; falava-se em províncias do Norte.

d) só estrangeiros usavam a palavra.

7. (Discursiva) A Confederação defendia liberdade e república, mas não propôs o fim da escravidão. Analise essa contradição.

Ver gabarito

1. B. A Carta chegou em março com ordem de juramento, somando-se ao impasse entre Manuel de Carvalho e o Morgado do Cabo.

2. C. A Constituição colombiana de 1821 era republicana e servia de modelo até que um congresso próprio se reunisse.

3. B. A diversidade social explica o recuo dos grandes proprietários diante da mobilização popular.

4. C. O decreto de 7 de julho repetia o castigo aplicado em 1817 com as Alagoas.

5. B. Havia dois projetos de independência em disputa, e o federativo perdeu.

6. C. A região foi construída como ideia no século XX, como mostrou Durval Muniz de Albuquerque Júnior.

7. Resposta pessoal, considerando quem eram os líderes e de que vivia a economia da província.

Resumo

  • Pernambuco tinha longa tradição de autonomia e revoltas, como 1817 e 1821.
  • O estopim foi a recusa em jurar a Carta de 1824 e a disputa sobre quem presidiria a província.
  • Em 2 de julho de 1824 foi proclamada uma república federativa, com adesões no Ceará, na Paraíba e no Rio Grande do Norte.
  • O movimento defendia federação, governo eleito e Constituição votada, mas manteve a escravidão.
  • A repressão de Cochrane e Lima e Silva tomou o Recife em setembro; Frei Caneca foi fuzilado em janeiro de 1825.
  • Pernambuco perdeu a Comarca do Rio de São Francisco como castigo.
  • A historiografia atual vê no movimento um projeto federalista derrotado.

Referências

  • PIMENTA, João Paulo. Formação da nação brasileira. São Paulo: Contexto, 2024.
  • DOLHNIKOFF, Miriam. História do Brasil Império. São Paulo: Contexto, 2017. (História na Universidade).
  • MELLO, Evaldo Cabral de. A outra independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824. São Paulo: Editora 34, 2004.
  • BERNARDES, Denis Antônio de Mendonça. O patriotismo constitucional: Pernambuco, 1820-1822. São Paulo: Hucitec, 2006.
  • CARVALHO, Marcus J. M. de. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo no Recife, 1822-1850. Recife: Editora da UFPE, 1998.
  • ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. Recife: Fundaj; São Paulo: Cortez, 1999.
  • LEITE, Glacyra Lazzari. Pernambuco 1824: a Confederação do Equador. Recife: Fundaj, Massangana, 1989.
  • DIAS, Adriana Machado; GRINBERG, Keila; PELLEGRINI, Marco. Jovem Sapiens: história, 8º ano. São Paulo: Scipione, 2022.

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