A Armadilha de Bayona: Como Napoleão capturou uma Família Real e Conquistou a Espanha
Em 1807, Napoleão Bonaparte queria apenas atravessar a Espanha para invadir Portugal. Um ano depois, havia conquistado a própria Espanha sem vencer uma única batalha contra ela, contando apenas com a ambição de um ministro odiado, a passividade de um rei mais interessado em caçar do que em governar e a impaciência de um príncipe disposto a tudo pela coroa. A história termina num retrato de família pintado por Goya, num escândalo de alcova que os historiadores ainda discutem, e numa infanta espanhola que atravessaria o Atlântico para tentar reinar no Brasil.
O pretexto perfeito: o Bloqueio Continental
Em 1806, Napoleão já dominava boa parte da Europa continental, mas esbarrava num obstáculo que os exércitos não resolviam: a Inglaterra, protegida pelo mar e por sua marinha. Para sufocar os britânicos, o imperador francês criou o Bloqueio Continental, medida que proibia qualquer país europeu de comerciar com eles.
Portugal, velho aliado da Inglaterra, recusou-se a aderir ao bloqueio. Napoleão decidiu invadir o país, mas a marinha inglesa controlava os mares, e a única rota possível era por terra, atravessando o território espanhol.
O Tratado de Fontainebleau: a porta que se abriu para o invasor
Em outubro de 1807, Napoleão convenceu Manuel Godoy, o todo-poderoso primeiro-ministro espanhol, a assinar um tratado secreto em Fontainebleau. O acordo previa que Espanha e França invadiriam Portugal juntas, dividindo o território conquistado, e Godoy receberia como recompensa o principado dos Algarves.
O tratado continha uma cláusula decisiva: autorizava o exército francês a atravessar livremente o território espanhol a caminho de Portugal. Foi a brecha de que Napoleão precisava. As tropas francesas entraram na península como aliadas e, em novembro de 1807, já ocupavam Lisboa, de onde a família real portuguesa fugira um dia antes rumo ao Brasil.
Napoleão, porém, não retirou as tropas depois de tomar Portugal. Ao contrário, enviou reforços e ocupou silenciosamente cidades espanholas como Pamplona e Barcelona. A Espanha estava sendo invadida por dentro, sem que uma só batalha tivesse sido travada.
O motim de Aranjuez: quando o povo perdeu a paciência
A presença militar francesa, somada ao ódio popular contra Godoy, acusado de corrupção e de servir aos interesses de Napoleão, levou a um clima de revolta. Em 17 de março de 1808, uma multidão cercou o palácio de Godoy na cidade de Aranjuez. Segundo o relato mais difundido sobre o episódio, o ministro passou dois dias escondido antes de ser encontrado e preso pela própria guarda real, que evitou seu linchamento.
Pressionado pela revolta, o rei Carlos IV concordou em demitir Godoy e, dois dias depois, abdicou do trono em favor do filho, Fernando VII. O povo espanhol comemorou, acreditando ter conquistado um rei jovem e livre da influência do ministro odiado. Ninguém sabia que essa vitória popular seria o ponto de partida do golpe seguinte, este armado por Napoleão.
A reunião em Bayona: a jogada de Napoleão
Com dois reis reivindicando o trono, Carlos IV, arrependido da abdicação, e Fernando VII, o novo monarca, Napoleão viu a oportunidade que esperava. Convocou pai e filho para uma reunião na cidade francesa de Bayona, sob o pretexto de mediar a disputa entre os dois.
Em Bayona, sem exército e sem apoio, já que a França ocupava militarmente o território espanhol, Carlos IV e Fernando VII foram pressionados a abrir mão da coroa em favor do próprio Napoleão. O imperador francês entregou então o trono espanhol ao irmão, José Bonaparte. Numa manobra articulada em poucos meses, a Espanha havia perdido sua dinastia sem que uma tropa espanhola tivesse sido derrotada em campo aberto.
A revolta de 2 de maio: o povo diz “basta”
A notícia das abdicações de Bayona chegou a Madri como uma traição. Em 2 de maio de 1808, moradores da cidade se levantaram contra as tropas francesas, enfrentando fuzis e canhões com facas, paus e pedras. A repressão foi brutal, e o episódio ficou registrado para sempre nas pinturas de Francisco de Goya sobre o Dois de Maio e os fuzilamentos que se seguiram.
A revolta de Madri deu início à Guerra da Independência espanhola, conflito que se estenderia por seis anos e que o próprio Napoleão, tempos depois, chamaria de sua “úlcera”: a ferida que nunca cicatrizou por completo.
Francisco de Goya, “O Três de Maio de 1808 em Madri” (1814)
Reprodução da pintura que retrata o fuzilamento de resistentes espanhóis pelas tropas napoleônicas, um dos símbolos mais conhecidos da Guerra da Independência.
Fonte: Museu do Prado, Madri / Wikimedia Commons / domínio público
Um retrato de família, alguns anos antes
Oito anos antes da crise, em 1800, o mesmo Francisco de Goya havia pintado a família real reunida num retrato oficial encomendado pela própria Coroa: “A Família de Carlos IV”. A composição, hoje exposta no Museu do Prado, mostra o rei cercado pela esposa, os filhos e outros parentes, num arranjo que lembra deliberadamente “As Meninas” de Velázquez, com o próprio Goya pintando ao fundo.
Francisco de Goya, “A Família de Carlos IV” (1800-1801)
Óleo sobre tela, 280 x 336 cm. A rainha Maria Luísa ocupa o centro da composição, segurando a mão do infante Francisco de Paula, que por sua vez estende a outra mão ao rei Carlos IV.
Fonte: Museu Nacional do Prado, Madri
Quem ocupa o centro da cena não é o rei, mas a rainha Maria Luísa de Parma, segurando pela mão o filho caçula, o infante Francisco de Paula, que por sua vez estende a outra mão ao pai. Historiadores da arte apontam que essa composição reflete o poder real da corte: era a rainha, e por meio dela o favorito Manuel Godoy, quem de fato governava a Espanha, enquanto Carlos IV preferia dedicar seu tempo à caça e à coleção de relógios.
Um parecido “indecente” Contemporâneos comentavam que o pequeno Francisco de Paula tinha um parecido incômodo com Godoy, o que alimentou rumores de que o infante seria filho biológico do ministro, e não do rei. O boato nunca foi comprovado por documentos da época. Biógrafos mais recentes de Godoy, como o historiador espanhol Emilio La Parra López, avaliam que boa parte da fama de depravação que cercou o ministro nasceu de campanhas de difamação movidas por rivais na corte, não de fatos verificáveis. Já Ricardo García Cárcel dedicou um livro inteiro a desmontar mitos como esse, construídos ao redor da guerra de 1808 e de seus personagens.
Também aparece no quadro, com o rosto apenas parcialmente visível na lateral, a filha mais velha do casal real: a infanta Carlota Joaquina, então ainda solteira na Espanha. Ela reaparece no fim desta história, do outro lado do Atlântico.
Os bastidores do poder: o triângulo escandaloso
Por trás dos tratados e das batalhas, havia também intrigas de bastidores dignas de novela. A figura mais odiada da Espanha da época era o próprio Manuel Godoy, um ex-guarda-costas que, ainda jovem, havia se tornado o homem mais poderoso do reino. Além da desconfiança gerada por sua ascensão meteórica, corria entre a nobreza e o povo o boato de que Godoy seria amante da rainha Maria Luísa, dezessete anos mais velha que ele, e de que o rei Carlos IV, mais interessado em caçar do que em governar, teria aceitado passivamente a situação.
Historiadores atuais tratam essa versão com cautela. Muitos consideram que o caso amoroso foi uma calúnia espalhada por opositores de Godoy na corte, interessados em derrubá-lo politicamente. O que se sabe com segurança é que Godoy era profundamente impopular, que a rainha exercia grande influência sobre as decisões de governo, e que essa combinação bastou para alimentar a fúria popular que explodiria em Aranjuez.
Epílogo: o retrato atravessa o Atlântico
A menina retratada de perfil no canto do quadro de Goya, a infanta Carlota Joaquina, havia se casado ainda criança com o futuro Dom João VI de Portugal e foi viver em Lisboa. Quando Napoleão também invadiu Portugal, em novembro de 1807, ela cruzou o Atlântico junto com toda a corte portuguesa rumo ao Rio de Janeiro, onde já vivia quando a notícia das abdicações de Bayona chegou à América.
Vendo o irmão Fernando VII prisioneiro na França e o trono espanhol vago, Carlota Joaquina se declarou herdeira legítima dos domínios espanhóis na América e passou a reivindicar a regência das colônias espanholas do Rio da Prata, região que hoje reúne Argentina, Uruguai, Paraguai e parte da Bolívia. Escreveu aos cabildos de Buenos Aires e Montevidéu oferecendo-se como regente enquanto durasse o cativeiro do irmão.
O movimento ficou conhecido como Carlotismo e durou de 1808 a 1812. Nunca teve sucesso: a Junta de Sevilha não reconhecia autoridade a Carlota, o governo português via com desconfiança suas ambições sobre território espanhol, e as próprias juntas americanas, cada vez mais inclinadas à autonomia, não tinham interesse em trocar Fernando VII por uma princesa portuguesa. Ainda assim, o episódio mostra como a crise desencadeada em Bayona atravessou o oceano e chegou a interferir diretamente na política do Brasil colonial.
A mesma menina que Goya pintou discretamente ao lado da família, anos antes de qualquer um imaginar o tamanho da crise que se aproximava, terminaria seus dias em Queluz, Portugal, em 1830, sem nunca ter conseguido a coroa que reivindicou do outro lado do Atlântico.
Bibliografia complementar
GARCÍA CÁRCEL, Ricardo. El sueño de la nación indomable: los mitos de la Guerra de la Independencia. Madrid: Temas de Hoy, 2007. Historiador espanhol que desmonta mitos construídos em torno da guerra de 1808, incluindo a imagem de Godoy como traidor e a de Fernando VII como “príncipe inocente”. LA PARRA LÓPEZ, Emilio. Manuel Godoy: la aventura del poder. Barcelona: Tusquets, 2002. Considerada a biografia mais completa e equilibrada sobre Godoy, com base em documentação de arquivo que questiona a imagem tradicionalmente negativa do ministro. AZEVEDO, Francisca L. Nogueira de. “Carlota Joaquina, a herdeira do império espanhol na América.” Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, FGV, v. 10, n. 20, p. 251-275, 1997. Artigo acadêmico brasileiro sobre o projeto de regência de Carlota Joaquina na América espanhola. GOMES, Laurentino. 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo: Planeta, 2007. Livro de divulgação histórica, best-seller no Brasil, sobre a fuga da corte portuguesa e seus desdobramentos. RUBIO, Julián María. La infanta Carlota Joaquina y la política de España en América (1808-1812). Madrid: Imprenta de Estanislao Maestre, 1920. Obra clássica da historiografia espanhola sobre o carlotismo, ainda citada por trabalhos acadêmicos recentes.
Vídeos e documentários
O professor indica: “A la sombra de la revolución”, episódio 18 da série documental Memoria de España (RTVE, 2004), com consultoria histórica de Ricardo García Cárcel. Cobre o reinado de Carlos IV, a ascensão de Godoy, o Motim de Aranjuez e as abdicações de Bayona. A ficha oficial da obra “A Família de Carlos IV” no site do Museu do Prado (museodelprado.es) traz análise detalhada de cada personagem retratado no quadro, incluindo a posição de Carlota Joaquina na composição.