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Segunda-feira, 5 de outubro de 2026
ANO I — RIO DE JANEIRO Segunda-feira, 5 de outubro de 2026 EDIÇÃO ESPECIAL — HISTÓRIA
Ilustração Felipe Deveza
Professor Felipe Deveza

Repositório de História e Materiais Didáticos

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Resumo do Primeiro Reinado (1822-1831)

Entre a aclamação de D. Pedro como imperador, em outubro de 1822, e a sua abdicação, em abril de 1831, passaram-se menos de nove anos. Nesse intervalo houve guerras nas províncias do Norte e no Prata, uma Assembleia Constituinte fechada por tropas, uma Constituição entregue pronta pelo imperador, uma república proclamada em Pernambuco e uma crise que terminou com D. Pedro embarcando de volta para a Europa.

Um Estado que ainda precisava existir

A separação de Portugal, declarada em setembro de 1822, deixou uma tarefa enorme pela frente. Como escreve a historiadora Miriam Dolhnikoff, o desafio passou a ser construir uma nova nação e um novo Estado: a América lusitana deveria virar Brasil, e seus habitantes deixariam de ser portugueses para se tornarem brasileiros. Faltavam uma Constituição, instituições que funcionassem em todo o território e um acordo entre as elites das províncias sobre o país que queriam.

A independência também precisou ser conquistada pelas armas. Entre 1822 e 1824 houve combates na Bahia, no Maranhão, no Piauí, no Pará e na Cisplatina. As tropas portuguesas deixaram Salvador em 2 de julho de 1823, depois de meses de cerco, e a esquadra comandada pelo britânico Thomas Cochrane forçou a rendição de São Luís e de Belém. João Paulo Pimenta lembra que o Brasil não herdou um território pronto: o Império teve de construí-lo, e essas guerras foram decisivas para que as províncias aderissem ao governo do Rio de Janeiro.

D. Pedro foi aclamado em 12 de outubro de 1822 e coroado em 1º de dezembro com o título de Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil. A palavra constitucional prometia um governo submetido a leis escritas, promessa que seria posta à prova já no ano seguinte.

Pintura do embaixador britânico entregando credenciais a D. Pedro I
Reconhecimento do Império do Brasil e sua independência, óleo sobre tela, século XIX. A cena mostra o diplomata britânico Charles Stuart entregando suas credenciais a D. Pedro I, sentado ao lado da imperatriz Leopoldina. O reconhecimento internacional custou caro ao novo Estado.

Quem disputava o poder

A ruptura com Lisboa uniu grupos com projetos diferentes, que logo entraram em choque. Os absolutistas queriam um imperador forte, acima dos demais poderes, e tinham apoio entre grandes comerciantes portugueses do Rio, altos funcionários e parte da oficialidade. Os liberais moderados, proprietários rurais e bacharéis, aceitavam limitar o imperador por meio de um parlamento, mas defendiam a escravidão e o voto restrito pela renda. Os liberais exaltados pediam autonomia para as províncias, liberdade de imprensa e mais participação política, e alguns chegavam a defender a república.

Havia ainda artesãos, caixeiros, soldados e pequenos comerciantes que faziam política nas ruas. Para eles, ser brasileiro significava disputar empregos e comércio com os negociantes portugueses. Os rótulos partido brasileiro e partido português, muito usados nos jornais, eram acusações políticas: não correspondiam a partidos organizados.

Da Constituinte à Carta outorgada

A Assembleia Constituinte se instalou em 3 de maio de 1823. O projeto que discutia ficou conhecido como Constituição da Mandioca, porque media a renda exigida para votar em alqueires de farinha. O texto limitava os poderes do imperador. Em 12 de novembro de 1823, tropas cercaram a Assembleia e D. Pedro a dissolveu, episódio lembrado como Noite da Agonia.

Um Conselho de Estado de dez membros redigiu outro texto, e a Constituição foi outorgada em 25 de março de 1824. Ela criou quatro poderes, com o Moderador reservado ao imperador, instituiu o voto censitário em dois graus, o Senado vitalício e o catolicismo como religião oficial. Sobre a escravidão, silenciou. Esse texto durou 65 anos.

Guerras e revoltas

Confederação do Equador (1824). Pernambuco recusou jurar a Carta e, em 2 de julho de 1824, Manuel de Carvalho Paes de Andrade proclamou uma república federativa, com adesões no Ceará, na Paraíba e no Rio Grande do Norte. A repressão por terra e mar derrotou o movimento em poucos meses. Frei Caneca foi fuzilado em Recife em 13 de janeiro de 1825.

Guerra da Cisplatina (1825 a 1828). A antiga Banda Oriental, anexada em 1821, se rebelou em 1825 e foi apoiada pelas Províncias Unidas do Rio da Prata. Depois de três anos de guerra cara e sem vencedor, a paz mediada pela Grã-Bretanha criou em 1828 um Estado independente, o futuro Uruguai.

Dívidas, café e tráfico

Para ser reconhecido por Portugal, em 1825, o Brasil assumiu uma dívida de cerca de dois milhões de libras esterlinas, tomada por empréstimo em Londres. Em 1827, um tratado garantiu tarifa de apenas 15% às mercadorias britânicas, o que reduziu a principal receita do Estado. Em 1826, o governo se comprometeu com os ingleses a encerrar o tráfico atlântico de africanos em três anos.

Enquanto isso, o café avançava pelo Vale do Paraíba e aumentava a procura por trabalhadores escravizados. Moedas de cobre falsificadas circulavam em grande quantidade, os preços subiam e o primeiro Banco do Brasil foi liquidado em 1829. Pimenta mostra que o compromisso contra o tráfico fez os proprietários escravistas acusarem D. Pedro de ser inimigo dos interesses nacionais.

A queda de D. Pedro I

A partir de 1826, o desgaste veio de várias frentes. A morte de D. João VI envolveu o imperador na disputa pelo trono português contra o irmão D. Miguel, e a oposição passou a acusá-lo de querer recolonizar o Brasil. A Câmara eleita em 1830 era majoritariamente oposicionista, a imprensa se multiplicou e o assassinato do jornalista Líbero Badaró, em São Paulo, em novembro de 1830, radicalizou os ânimos.

Em março de 1831, a recepção organizada pelos partidários do imperador no Rio terminou em três dias de conflito nas ruas, a Noite das Garrafadas. Em 5 de abril, D. Pedro trocou o ministério por outro ligado à Corte. No dia 6, populares, deputados e soldados se reuniram no Campo de Santana, e à noite as tropas aderiram ao movimento. Na madrugada de 7 de abril de 1831, D. Pedro abdicou em favor do filho de cinco anos, Pedro de Alcântara, e partiu para a Europa. Começava o período regencial.

Pintura da abdicação de D. Pedro I
A abdicação do primeiro imperador do Brasil, D. Pedro I, de Aurélio de Figueiredo. Óleo sobre tela, c. 1900. A pintura foi feita quase setenta anos depois do episódio e transforma a madrugada de 7 de abril em cena solene.

Cronologia

Data Acontecimento
1822 Independência em setembro; aclamação em 12 de outubro e coroação em 1º de dezembro.
1823 Instalação da Constituinte em maio; saída das tropas portuguesas de Salvador em julho; dissolução da Constituinte em 12 de novembro.
1824 Constituição outorgada em 25 de março; Confederação do Equador proclamada em 2 de julho.
1825 Execução de Frei Caneca; início da revolta na Cisplatina; reconhecimento da independência por Portugal.
1826 Morte de D. João VI; primeira Assembleia Geral; tratado sobre o fim do tráfico; morte de Leopoldina.
1827 Tratado comercial com a Grã-Bretanha; batalha do Passo do Rosário.
1828 Revolta dos mercenários no Rio; paz que cria o Estado Oriental do Uruguai.
1829 Liquidação do primeiro Banco do Brasil.
1830 Assassinato de Líbero Badaró em São Paulo.
1831 Noite das Garrafadas em março; abdicação em 7 de abril.

Glossário

Aclamação
Cerimônia pública em que um governante é reconhecido e saudado como tal. D. Pedro foi aclamado no Campo de Santana.
Outorgar
Conceder. Uma Constituição outorgada é entregue pronta pelo governante, sem votação de representantes eleitos.
Poder Moderador
Quarto poder criado pela Carta de 1824, exclusivo do imperador, que lhe permitia interferir nos demais.
Voto censitário
Sistema em que só vota quem comprova determinada renda.
Tráfico atlântico
Comércio de pessoas africanas escravizadas transportadas à força através do oceano Atlântico.
Recolonização
Acusação feita pela oposição de que D. Pedro queria devolver o Brasil ao controle de Portugal.
Abdicar
Renunciar ao trono, geralmente em favor de um herdeiro.

Questões

1. A dissolução da Assembleia Constituinte, em novembro de 1823, é considerada um momento decisivo do Primeiro Reinado porque:

a) encerrou os combates entre tropas brasileiras e portuguesas nas províncias do Norte.

b) revelou o limite da promessa constitucional de 1822, já que o imperador impôs pela força uma solução política.

c) resultou da recusa dos deputados em aprovar o fim do tráfico atlântico.

d) foi provocada pela proclamação da Confederação do Equador.

2. Sobre o Poder Moderador, é correto afirmar que:

a) era exercido em conjunto pelo imperador e pelo Senado.

b) só podia ser acionado em caso de guerra externa.

c) era exclusivo do imperador e permitia interferir sobre os demais poderes.

d) substituiu o Judiciário nas províncias distantes da Corte.

3. O reconhecimento da independência por Portugal, em 1825, teve como consequência:

a) a devolução da Cisplatina a Portugal.

b) o fim imediato da presença de comerciantes portugueses no Rio.

c) o compromisso brasileiro de pagar cerca de dois milhões de libras, obtidos por empréstimo em Londres.

d) a adesão do Brasil a um bloqueio contra a Grã-Bretanha.

4. A expansão do café no Vale do Paraíba na década de 1820 relaciona-se com:

a) a redução dos desembarques de africanos escravizados.

b) o aumento da procura por trabalho escravizado, em contradição com o tratado de 1826.

c) a chegada de imigrantes europeus assalariados.

d) o fim das exportações de açúcar.

5. Entre os fatores que levaram à abdicação de D. Pedro I está:

a) a derrota militar do governo na Confederação do Equador.

b) a aliança do imperador com os exaltados contra os proprietários rurais.

c) o acúmulo de desgastes, como a sucessão portuguesa, a crise financeira e a perda de apoio das tropas.

d) uma votação da Assembleia Geral que o destituiu.

 

6. (Discursiva) Explique por que a independência de 1822 não significou, de imediato, a existência de um Estado organizado. Cite dois problemas enfrentados entre 1822 e 1824.

 

7. (Discursiva) Relacione a Guerra da Cisplatina ao desgaste de D. Pedro I, considerando custos, recrutamento e resultado do conflito.

 

Ver gabarito

1. B. A Assembleia fora convocada para escrever a Constituição prometida. Ao dissolvê-la com tropas, o imperador mostrou que a promessa dependia de sua vontade.

2. C. Pelo artigo 98, o Moderador era delegado privativamente ao imperador, que podia nomear senadores, dissolver a Câmara e demitir ministros.

3. C. O tratado de 1825 fixou a indenização a Portugal, paga com dinheiro emprestado em Londres.

4. B. O café exigia muita mão de obra, e os desembarques cresceram justamente quando o governo prometia acabar com o tráfico.

5. C. A abdicação resultou de um processo que somou crise externa, econômica e política, decidido pela adesão das tropas ao Campo de Santana.

6 e 7. Respostas pessoais. Serão avaliados a construção do argumento e o uso de informações do texto.

Resumo

  • Depois de 1822 foi preciso criar um Estado, um território e uma nação brasileira, que ainda não existiam prontos.
  • A independência foi garantida por guerras nas províncias do Norte e na Cisplatina entre 1822 e 1824.
  • D. Pedro fechou a Constituinte em 1823 e outorgou a Constituição de 1824, com Poder Moderador, voto censitário e silêncio sobre a escravidão.
  • A Confederação do Equador (1824) e a Guerra da Cisplatina (1825 a 1828) foram os grandes conflitos do período.
  • Dívida externa, tarifas baixas, crise monetária e o compromisso contra o tráfico desgastaram o governo.
  • Sem apoio da elite política, da imprensa e das tropas, D. Pedro I abdicou em 7 de abril de 1831.

Referências

  • PIMENTA, João Paulo. Formação da nação brasileira. São Paulo: Contexto, 2024.
  • DOLHNIKOFF, Miriam. História do Brasil Império. São Paulo: Contexto, 2017. (História na Universidade).
  • DOLHNIKOFF, Miriam. O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil do século XIX. São Paulo: Globo, 2005.
  • BOULOS JÚNIOR, Alfredo. História, sociedade & cidadania: 8º ano. São Paulo: FTD, 2018.
  • DIAS, Adriana Machado; GRINBERG, Keila; PELLEGRINI, Marco. Jovem Sapiens: história, 8º ano. São Paulo: Scipione, 2022.
  • NÚCLEO PRÁXIS-USP. História do Brasil e Geral. São Paulo: Associação Cultural de Educadores e Pesquisadores da USP, edição digital.
  • RIBEIRO, Gladys Sabina. A liberdade em construção: identidade nacional e conflitos antilusitanos no Primeiro Reinado. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

Felipe Deveza · História · 8º ano · felipedeveza.com.br

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