Como Diego Rivera, José Clemente Orozco e Juan O’Gorman pintaram a história na parede
No México, a história da Independência não está só nos livros. Ela está pintada em paredes enormes, em escadarias de palácios de governo, em tetos abobadados que os visitantes precisam erguer o pescoço para ver por completo. Três artistas, em três momentos diferentes do século XX, decidiram contar essa história com pincel e tinta, em vez de livros. Vamos conhecer esses murais, entender por que foram pintados e descobrir os personagens que estão representados ali.
- O QUE FOI O MURALISMO MEXICANO
Após as batalhas da Revolução Mexicana, em 1920, o secretário de educação pública do novo governo decidiu convidar artistas plasticos para decorar os predios públicos com pinturas sobre a História do México, de forma com que mesmo pessoas que não soubessem ler pudessem conhecer a história do país.
José Vasconcelos reuniu artistas para decorar escolas, ministérios e palácios de governo com cenas da história mexicana. A escolha pelo mural, e não pela tela de cavalete, não foi apenas estética. Os muralistas consideravam a pintura de cavalete (em pequenas telas com moldura) uma arte burguesa, feita para ser comprada e guardada em coleções particulares. O mural, ao contrário, ficava exposto para qualquer pessoa que passasse por ali, alfabetizada ou não, apreciar. Em 1922, Diego Rivera e outros artistas assinaram o manifesto do Sindicato dos Trabalhadores Técnicos, Pintores e Escultores, no qual defendiam uma arte voltada para o povo.
Esse projeto de governo elevou o passado indígena a símbolo da nova identidade nacional. Vale notar uma contradição que historiadores apontam até hoje: os murais celebravam astecas e maias do passado, mas isso nem sempre correspondia a políticas concretas de melhoria de vida para as populações indígenas do presente. Mesmo assim, o muralismo mexicano se tornou um dos movimentos artísticos mais importantes do século XX, e seus três nomes principais, conhecidos como os Tres Grandes, foram Diego Rivera, José Clemente Orozco e David Alfaro Siqueiros. Esses murais formam atualmente a identidade visual mexicana e são um dos mais importantes patrimônios culturais do país.
Abaixo destacaremos três muralistas e três de obras que destacam a forma com que procuraram narrar a independência mexicana.
- TRÊS HOMENS, TRÊS MURAIS
Antes de entrar em cada obra, é preciso conhecer quem pintou essas paredes. Os três artistas tinham personalidades e visões de mundo muito diferentes entre si, e essa diferença salta aos olhos quando comparamos seus murais.
Diego Rivera (1886–1957)
Diego Rivera. Ilustração em estilo buril, baseada em fotografias históricas do pintor.
Nascido em Guanajuato, Rivera estudou na Academia de San Carlos e depois viveu mais de uma década na Europa, onde conviveu com Pablo Picasso e absorveu a linguagem do cubismo. Voltou ao México em 1921, já convencido de que sua pintura deveria servir ao povo e não a colecionadores particulares. Foi o mais otimista dos três muralistas: seus murais tratam a história mexicana como uma marcha em direção a um futuro mais justo, sob clara influência marxista. Casou-se com a pintora Frida Kahlo em 1929. Morreu em 1957 sem terminar o mural mais ambicioso de sua carreira, justamente aquele que daria origem ao Retablo de la Independencia.
José Clemente Orozco. Ilustração em estilo buril, baseada em fotografias históricas do pintor.
José Clemente Orozco (1883–1949)
Nascido em Zapotlán el Grande, Jalisco, Orozco perdeu a mão esquerda ainda jovem, em um acidente com pólvora de fogos de artifício. Estudou na Academia de San Carlos, onde teve como mentor o pintor Gerardo Murillo, conhecido como Dr. Atl, que o incentivou a abandonar os modelos europeus e olhar para o México real. Diferente de Rivera, Orozco enxergava a Revolução com desconfiança: para ele, toda mudança histórica tinha um custo humano enorme, e seus murais carregam esse peso trágico. Viveu nos Estados Unidos entre 1927 e 1934. Morreu de ataque cardíaco em 1949, pouco depois de concluir suas últimas obras em Guadalajara.
Juan O’Gorman. Ilustração em estilo buril, baseada em fotografias históricas do artista.
Juan O’Gorman (1905–1982)
Nascido em Coyoacán, na Cidade do México, filho do pintor irlandês Cecil Crawford O’Gorman, Juan O’Gorman não começou como muralista, e sim como arquiteto formado pela UNAM. Foi pioneiro do funcionalismo no México e projetou, entre outras obras, a casa-estúdio de Diego Rivera e Frida Kahlo e a Biblioteca Central da UNAM, célebre por seus painéis de mosaico de pedra natural. Décadas depois, assumiu um projeto que originalmente pertencia a Rivera: pintar a história da Independência mexicana para o Museu Nacional de História. O resultado foi o Retablo de la Independencia, concluído em 1961.
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- DIEGO RIVERA E A HISTÓRIA DO MÉXICO NO PALÁCIO NACIONAL
Entre 1929 e 1935, Diego Rivera pintou a grande escadaria do Palácio Nacional, sede do governo mexicano na Cidade do México, com um ciclo de murais que ele chamou de A História do México. Em suas próprias palavras, a obra deveria representar toda a história do México desde a Conquista até a Revolução Mexicana, e seguir até o presente, por mais feio que esse presente parecesse.
Vista geral da escadaria do Palácio Nacional, na Cidade do México, com o ciclo de murais pintado por Diego Rivera entre 1929 e 1935. Fonte: Wikimedia Commons, domínio público
Detalhe da parede oeste do Palácio Nacional. A faixa vermelha traz a palavra de ordem Tierra y Libertad, empunhada em meio a líderes da Reforma, da Independência e da Revolução, todos reunidos numa mesma composição
O conjunto ocupa três paredes da escadaria. Na parede norte, intitulada O Mundo Asteca, Rivera retratou a vida em Tenochtitlán antes da chegada dos espanhóis. Na parede sul, pintada anos mais tarde, em 1935, ele imaginou o México de hoje e de amanhã, contrapondo o capitalismo industrial à organização operária. É a parede oeste, batizada de Da Conquista a 1930, que mais interessa ao nosso tema: ali, Rivera comprimiu a Conquista, a evangelização católica, a luta pela Independência, a Reforma e a Revolução numa composição só, dividida por arcos arquitetônicos.
No topo da parede oeste, cinco seções separadas pelos arcos mostram, da esquerda para a direita, as invasões estrangeiras que o México sofreu no século dezenove, a francesa e a estadunidense, nas pontas, a ditadura de Porfírio Díaz, as figuras da Independência e da Revolução, e a Constituição de 1857 com a Guerra da Reforma. Na parte de baixo, sem nenhuma separação visual, Rivera amontoou cenas da conquista espanhola, da destruição dos códices mesoamericanos e da chegada dos missionários católicos, como se quisesse dizer que esses processos são inseparáveis uns dos outros.
Observe a faixa vermelha com as palavras Tierra y Libertad, terra e liberdade. Ela é erguida por Emiliano Zapata, líder camponês da Revolução Mexicana de 1910, e aparece ao lado de figuras de mais de cem anos antes, como o padre Miguel Hidalgo. Essa mistura de tempos não é um erro de Rivera: é uma escolha deliberada. Ao colocar Hidalgo e Zapata no mesmo plano visual, sem hierarquia entre eles, Rivera sugere que a luta pela terra e pela liberdade começada em 1810 continuava sem solução um século depois. Logo no centro da parede, uma águia sobre um nopal repete o brasão da bandeira mexicana, lembrando que toda essa história desagregada converge para a ideia de uma única nação.
Também aparecem nesta seção Benito Juárez, primeiro presidente indígena do México, e uma multidão de trabalhadores, soldados e camponeses anônimos, do mesmo tamanho que os heróis mais conhecidos. Essa é a marca registrada de Rivera: ele recusava uma história contada apenas por meio de generais e presidentes, e insistia em dar protagonismo visual a quem normalmente fica de fora dos livros.
- OROZCO E O HIDALGO INCENDIÁRIO, EM GUADALAJARA
Ilustração em estilo buril baseada no mural Hidalgo Incendiário, de José Clemente Orozco, 1937, Palácio de Governo de Jalisco, Guadalajara.
Em 1937, o governador de Jalisco, Everardo Topete, convidou José Clemente Orozco para pintar a abóbada da escadaria principal do Palácio de Governo, em Guadalajara. O resultado, conhecido como Hidalgo Incendiário, é um dos murais mais impactantes de todo o muralismo mexicano, e a diferença em relação ao otimismo de Rivera é imediata.
A composição se divide em dois espaços bem distintos. No alto, dominando toda a abóbada, surge o busto gigantesco de Miguel Hidalgo, pintado sobre um fundo vermelho que parece girar em torno dele, como um turbilhão de pinceladas circulares. Um braço está erguido em punho fechado, o outro sustenta uma tocha em chamas. É essa tocha que dá nome popular ao mural: Hidalgo não está apenas liderando, ele está incendiando a rebelião. Quando alguém sobe a escadaria do palácio, a figura parece se lançar sobre quem olha, criando um efeito de impacto quase físico.
Fotografia do mural Hidalgo Incendiário em seu local original, a escadaria do Palácio de Governo de Jalisco, em Guadalajara.
Embaixo de Hidalgo, em tons frios de cinza e verde, uma massa de figuras se debate em luta. Ali, Orozco fez algo deliberadamente anacrônico: misturou símbolos de 1810 com símbolos da década de 1930, como a cruz, a foice e o martelo, e até insinuações da cruz gamada nazista. A mensagem é clara: para Orozco, a luta entre opressão e liberdade que Hidalgo iniciou não tinha terminado com a Independência. Ela continuava, sob outras bandeiras, no seu próprio tempo, em plena ascensão do fascismo na Europa.

Em termos de tamanho, o mural ocupa por completo a abóbada e as paredes da escadaria, de modo que é impossível observá-lo de um único ponto de vista; cada lance de escada revela um ângulo diferente da obra. Quanto às cores, o contraste entre o vermelho quente de Hidalgo e o cinza esverdeado da multidão é o que constrói a carga emocional do mural: há esperança e fúria na parte de cima, sofrimento e confusão na parte de baixo. Diferente de Rivera, que organizava sua história em cenas relativamente identificáveis, Orozco prefere o impacto emocional imediato à narrativa didática.
- O RETABLO DE LA INDEPENDENCIA, DE JUAN O’GORMAN
Em 1957, o diretor do Museu Nacional de História, Antonio Arriaga, decidiu encomendar um grande mural sobre a Independência mexicana para o Castelo de Chapultepec, sede do museu. A tarefa foi entregue a Diego Rivera, que desenhou o espaço onde a pintura seria feita e, com a ajuda da filha Ruth, começou a reunir retratos e desenhos dos personagens que pretendia representar. Antes de pintar uma única pincelada, porém, Rivera adoeceu e morreu, em novembro de 1957.
Juan O’Gorman assumiu o projeto e refez, por conta própria, toda a pesquisa iconográfica. O resultado, pintado entre 1960 e 1961 diretamente sobre a parede em técnica de afresco, mede 4,40 metros de altura por 15,69 metros de largura. É hoje a peça central da sala do museu dedicada às pegadas de Miguel Hidalgo, e muitos dos retratos do mural foram baseados em pinturas que já pertenciam ao acervo do próprio museu.
Visão central do Mural, omitindo o canto esquerdo
O mural se lê da esquerda para a direita, como uma página. Do lado esquerdo, sob a bandeira espanhola, O’Gorman pintou a sociedade colonial pouco antes da insurgência: a elite dirigente espanhola e criolla, contrastada com a miséria da população indígena explorada nas minas e nas fazendas. Mais ao centro, sob um edifício de inspiração neoclássica que representa o Iluminismo e a Revolução Francesa, aparecem os precursores intelectuais do movimento. No centro da composição está a figura de Hidalgo, pintada duas vezes: uma como o padre de cabelos brancos que todo mexicano reconhece, outra mais jovem, em traje de campanha, erguendo a tocha da rebelião e o decreto de abolição da escravidão assinado em Guadalajara. À direita, o desfecho narrativo é o Congresso de Chilpancingo, com Morelos apresentando os Sentimentos da Nação.
Parte esquerda do Mural
Parte Direita do Mural
Há ainda um detalhe simbólico que liga as duas pontas do mural: a lua aparece no céu do lado esquerdo, e o amanhecer desponta no lado direito. É a metáfora de um único dia simbólico em que o México teria passado da noite da dominação colonial para a luz da autonomia.
| UMA ESCOLHA DELIBERADA DE O’GORMAN
Para representar a violência sofrida pela população indígena, O’Gorman criou uma sequência de cenas inspiradas na via sacra cristã: um homem agoniza amarrado a uma coluna, depois é açoitado, e por fim aparece crucificado. Ao usar essa linguagem religiosa, tão familiar à população católica mexicana, o artista tornou visível e compreensível um sofrimento que os documentos históricos da época raramente registraram. |
- QUEM É QUEM NO RETABLO — PAINEL B: HIDALGO, MORELOS E GUERRERO
A metade direita do mural concentra a ação da insurgência armada: o Grito de Dolores, os estandartes religiosos transformados em bandeiras de guerra, e o desfecho político no Congresso de Chilpancingo. A numeração abaixo foi aplicada sobre a versão em preto e branco do mural para facilitar a identificação de cada elemento.

| Nº |
IDENTIFICAÇÃO |
O QUE REPRESENTA NO MURAL |
| 1 |
Miguel Hidalgo y Costilla (1753–1811) |
Padre da Independência do México. Nascido em Pénjamo, Guanajuato, foi padre, professor e reitor do Colégio de São Nicolau. Em 16 de setembro de 1810, na vila de Dolores, deu o Grito de Dolores, marco inicial da insurgência. Liderou um exército popular que tomou Guanajuato e Valladolid e decretou a abolição da escravidão. Derrotado em Calderón, foi capturado e fuzilado em Chihuahua em 30 de julho de 1811. |
| 2 |
Estandarte de Nossa Senhora de Guadalupe (1810) |
Bandeira tomada por Hidalgo no santuário de Atotonilco e adotada como padroeira do exército insurgente. Funcionou como símbolo unificador entre pessoas indígenas, mestiças e camponesas católicas. |
| 3 |
Estandarte do regimento de Hidalgo (1810) |
Bandeira com caveira sobre cruz e o número 12, referência a um dos regimentos insurgentes formados durante a campanha de Hidalgo. |
| 4 |
Bandeira de Aculco (1810) |
Segundo o próprio O’Gorman, esta bandeira da batalha de Aculco foi pintada duas vezes no mural, no anverso e no reverso, reforçando a presença simbólica das insígnias insurgentes. |
| 5 |
Figura feminina a cavalo |
Mulher montada próxima ao centro da composição. Sua identidade não é confirmada pelas fontes oficiais do museu; pode representar uma alegoria da participação feminina ou uma das heroínas anônimas da insurgência. |
| 6 |
Vicente Guerrero (1782–1831) |
Nascido em Tixtla, filho de pai afromexicano e mãe indígena. Iniciou como arrieiro e armeiro. Uniu-se à insurgência em 1810 sob Hermenegildo Galeana e depois Morelos. Após a morte de Morelos, em 1815, manteve viva a resistência no sul até pactuar com Iturbide o Plano de Iguala, em 1821, consumando a Independência. Tornou-se o segundo presidente do México em 1829 e aboliu a escravidão. Foi traído e fuzilado em 1831. |
| 7 |
Cavaleiro fardado, atrás de Guerrero |
Oficial militar não identificado nominalmente pelas fontes consultadas. Compõe o grupo de cavaleiros desta seção do mural. |
| 8 |
Estandarte da águia com inscrição latina |
Bandeira com a frase Con los ojos y las garras se llega a la victoria, alusão ao símbolo da águia mexicana, posicionada atrás de Vicente Guerrero. |
| 9 |
Líder insurgente com sarape |
Figura com manto tradicional listrado, integrada ao grupo de comandantes próximos a Hidalgo e Morelos nesta seção do mural. |
| 10 |
José María Morelos y Pavón (1765–1815) |
Nascido em Valladolid, hoje Morelia, filho de carpinteiro, foi arrieiro antes de estudar no Colégio de São Nicolau, onde Hidalgo era reitor. Ordenado padre em 1797, juntou-se à insurgência em 1810. Assumiu a liderança após a morte de Hidalgo, venceu o cerco de Cuautla e tomou Oaxaca e Acapulco. Convocou o Congresso de Chilpancingo, em 1813, onde apresentou os Sentimentos da Nação, propondo a abolição da escravidão e das castas. Capturado em 1815, foi degradado pela Inquisição e fuzilado em Ecatepec. |
| 11 |
Congressistas de Chilpancingo (1813) |
Deputados do Congresso de Anáhuac, reunido em Chilpancingo sob liderança de Morelos. Segundo o INAH, apenas três das figuras sentadas nesta cena são retratos fiéis; as demais foram criadas por O’Gorman por falta de material iconográfico disponível. |
| 12 |
Documento dos Sentimentos da Nação (1813) |
Texto escrito por Morelos para orientar os trabalhos do Congresso de Chilpancingo, propondo a soberania popular, a abolição da escravidão e da distinção de castas. |
| 13 |
Menina junto à rocha |
Figura infantil ao lado de uma inscrição que situa cronologicamente o mural: este Retablo de la Independencia representa trinta anos da História do México. Sua identidade não é especificada pelas fontes do museu. |
| 14 |
Homens com lanças |
Insurgentes anônimos armados de lanças e foices adaptadas, parte da multidão popular que seguia Hidalgo e Morelos. |
| 15 |
Homem agachado ou caído |
Figura no canto inferior esquerdo desta seção, representando o custo humano da guerra entre a população insurgente. |
| 16 |
Piso quadriculado |
Ladrilhos que delimitam o espaço da cena do Congresso, no extremo direito do mural. |
| 17 |
Paisagem com cidade ao fundo |
Conjunto de construções coloniais que situa a narrativa numa cidade do interior mexicano. |
| 18 |
Porto de Acapulco e Forte de São Diego (1813) |
Ao fundo desta seção, O’Gorman pintou o porto de Acapulco com o Forte de São Diego, ponto estratégico tomado pelas forças de Morelos em 1813. |
- QUEM É QUEM NO RETABLO — PAINEL A: A SOCIEDADE COLONIAL
A metade esquerda do mural mostra o contraste entre o luxo da elite colonial e a miséria da população explorada, além dos precursores ideológicos da Independência. É aqui que O’Gorman concentrou sua sequência alegórica de inspiração religiosa sobre a exploração indígena.
Painel esquerdo do Retablo de la Independencia, em cores: a sociedade colonial, seus precursores ideológicos e a alegoria da exploração indígena.

| Nº |
IDENTIFICAÇÃO |
O QUE REPRESENTA NO MURAL |
| 19 |
Manuel Abad y Queipo (1751–1825) |
Bispo de Michoacán, amigo pessoal de Hidalgo antes da insurgência. Foi quem assinou o edito de excomunhão contra Hidalgo em 24 de setembro de 1810. Representa, no mural, a cúpula eclesiástica alinhada à Coroa espanhola. |
| 20 |
Bandeira colonial espanhola |
Estandarte sob o qual O’Gorman posicionou as figuras da elite dirigente da Nova Espanha. |
| 21 |
Lucas Alamán e Félix María Calleja (1792–1853 / 1753–1828) |
Esta seção reúne sob a bandeira espanhola o escritor e político Lucas Alamán e o general realista Félix María Calleja, que mais tarde comandaria a repressão à insurgência. |
| 22 |
Capataz a cavalo |
Figura montada em cavalo branco. Representa o capataz responsável por vigiar e maltratar os trabalhadores indígenas; O’Gorman o pintou com expressão de demência, sugerindo que só um perturbado cumpriria tal função. |
| 23 |
Vía crucis do indígena: agonia na coluna |
Cena que abre a sequência cristológica criada por O’Gorman para representar a exploração colonial: um homem agoniza amarrado a uma coluna. |
| 24 |
Aqueduto de Los Remedios (época colonial) |
Estrutura real da arquitetura colonial mexicana, usada por O’Gorman para ambientar a paisagem de fundo desta seção. |
| 25 |
Torre e região da Alhóndiga de Granaditas (1809) |
Construção que situa a região de Guanajuato, palco da tomada da Alhóndiga de Granaditas pelas tropas de Hidalgo em setembro de 1810. |
| 26 |
Edifício neoclássico: alegoria do Enciclopedismo |
Construção que simboliza, segundo O’Gorman, a Revolução Francesa e o Enciclopedismo, contextualizando os precursores ideológicos da Independência. |
| 27 |
Globo terrestre |
Alegoria ao conhecimento científico. Esta seção do mural homenageia cientistas como Alexander von Humboldt, Fausto Delhuyar e Andrés Manuel del Río, ligados à descoberta de elementos químicos e à mineralogia novo-hispânica. |
| 28 |
Primo de Verdad e Ramón Arizpe |
Este grupo inclui o licenciado Francisco Primo de Verdad, alcaide da capital, e Ramón Arizpe, retratado como impressor da propaganda insurgente. |
| 29 |
Vía crucis do indígena: açoitamento |
Sequência da alegoria cristológica de O’Gorman: trabalhador indígena amarrado e açoitado, representando a violência do sistema de exploração colonial. |
| 30 |
Homem com o látego |
Figura que executa o castigo físico na cena anterior, representando o agente da violência colonial. |
| 31 |
Trabalhador com carga nas costas |
Figura carregando fardos pesados, alusão ao trabalho forçado nas minas e na agricultura colonial. |
| 32 |
Vía crucis do indígena: crucificação final |
Culminação da sequência alegórica: um homem crucificado representa o ápice da exploração, da injustiça e da repressão sofridas pela população indígena, conforme descrito pelo INAH. |
| 33 |
Mulher que envelhece sem viver a juventude |
O’Gorman quis retratar uma mulher que de criança passa a anciã sem ter vivido sua juventude, símbolo da vida consumida pela miséria colonial. |
| 34 |
Homem em lamento |
Figura sentada com a mão no rosto, ao lado de um corpo prostrado, reforçando o tom de luto desta seção do mural. |
| 35 |
Homem ajoelhado |
Figura curvada ao solo, em posição de dor extrema, integrada à cena de punição coletiva. |
| 36 |
Corpo prostrado |
Figura caída no canto inferior esquerdo, completando o conjunto de corpos que ilustram o sofrimento humano sob o sistema colonial. |
| 37 |
A lua no céu noturno |
A lua do lado esquerdo do mural e o amanhecer do lado direito formam uma metáfora: o dia simbólico em que o México passou da escuridão da dominação espanhola à luz da autonomia. |
DOCUMENTO HISTÓRICO — SENTIMENTOS DA NAÇÃO
No mural de O’Gorman, o elemento 12 representa o documento que José María Morelos apresentou na abertura do Congresso de Chilpancingo, em 14 de setembro de 1813. O texto, conhecido como Sentimentos da Nação, tinha vinte e três artigos e propunha as bases de um futuro Estado mexicano independente. Leia um trecho do artigo 15, no original em espanhol.
| DOCUMENTO HISTÓRICO — Sentimentos da Nação, José María Morelos, Chilpancingo, 14 de setembro de 1813
“Que la esclavitud se proscriba para siempre, y lo mismo la distinción de castas, quedando todos iguales y sólo distinguirá a un americano de otro, el vicio y la virtud.” |
Perguntas para análise
- a) Segundo o artigo 15, o que deveria substituir a cor da pele e a origem familiar como critério de distinção entre as pessoas?
- b) Releia a descrição do elemento 11 do mural, sobre os congressistas de Chilpancingo. Por que você imagina que apenas três das figuras sentadas são retratos fiéis, segundo o INAH?
- c) Compare este documento de 1813 com o decreto de abolição da escravidão que Hidalgo já havia assinado em Guadalajara, em 1810. O que essa repetição do tema da escravidão em dois momentos distintos da insurgência sugere sobre a importância dessa bandeira para o movimento?
CRONOLOGIA
| 1808 |
Napoleão invade a Espanha e prende o rei Fernando VII, abrindo uma crise no império espanhol que se espalha pelas colônias americanas. |
| 1810 |
Em 16 de setembro, na vila de Dolores, o padre Miguel Hidalgo dá o Grito de Dolores e inicia a insurgência. Decreta a abolição da escravidão em Guadalajara, em dezembro. |
| 1811 |
Hidalgo é derrotado em Calderón, capturado e fuzilado em Chihuahua, em 30 de julho. |
| 1813 |
José María Morelos convoca o Congresso de Chilpancingo. Em 14 de setembro, apresenta o documento Sentimentos da Nação. |
| 1815 |
Morelos é capturado, julgado pela Inquisição e fuzilado em Ecatepec, em 22 de dezembro. |
| 1820 |
A revolução liberal espanhola obriga o rei a aceitar a Constituição de Cádis, alterando o equilíbrio político na Nova Espanha. |
| 1821 |
Vicente Guerrero e Agustín de Iturbide assinam o Plano de Iguala. Em 27 de setembro, o Exército Trigarante entra na Cidade do México, consumando a Independência. |
| 1823 |
Cai o primeiro império mexicano e é proclamada a República. |
| 1829 |
Vicente Guerrero, segundo presidente do México, decreta a abolição definitiva da escravidão no país. |
| 1910 |
Tem início a Revolução Mexicana, que derruba a longa ditadura de Porfírio Díaz. |
| 1921 |
José Vasconcelos assume o Ministério da Educação Pública e lança o programa de murais em prédios públicos. |
| 1922 |
Diego Rivera e outros artistas assinam o manifesto do Sindicato dos Trabalhadores Técnicos, Pintores e Escultores. |
| 1929 |
Diego Rivera inicia o ciclo de murais da escadaria do Palácio Nacional, na Cidade do México. |
| 1935 |
Rivera conclui a parede sul do Palácio Nacional, México Hoje e no Futuro. |
| 1937 |
José Clemente Orozco pinta o Hidalgo Incendiário na escadaria do Palácio de Governo de Jalisco, em Guadalajara. |
| 1949 |
Morte de José Clemente Orozco, na Cidade do México. |
| 1957 |
Morte de Diego Rivera, antes de iniciar a pintura do mural sobre a Independência encomendado pelo Museu Nacional de História. |
| 1960-61 |
Juan O’Gorman pinta o Retablo de la Independencia no Museu Nacional de História, Castelo de Chapultepec. |
| 1982 |
Morte de Juan O’Gorman, na Cidade do México. |
Frida Kahlo. Ilustração em estilo buril, baseada em fotografias históricas da pintora.
PARA SABER MAIS
Antes de assumir o Retablo de la Independencia, Juan O’Gorman já tinha um vínculo importante com Diego Rivera: foi ele quem projetou, na década de 1930, a casa-estúdio onde Rivera e Frida Kahlo viveram e trabalharam, em San Ángel, na Cidade do México. São dois prédios geométricos ligados por uma ponte, um para cada artista, num dos primeiros exemplos de arquitetura funcionalista do país. Hoje o conjunto é um museu aberto ao público.
Frida Kahlo não fez parte dos Tres Grandes nem pintou murais, mas sua história está entrelaçada com a desses artistas. Foi exatamente na casa-estúdio projetada por Juan O’Gorman que ela viveu e trabalhou ao lado de Diego Rivera, em meio ao círculo de pintores que reinventava a arte mexicana naqueles anos. Enquanto os muralistas recusavam o quadro de cavalete por considerá-lo uma arte burguesa, Frida fez o caminho inverso: transformou o autorretrato íntimo em instrumento político, tratando sua própria dor física e sua identidade mestiça como matéria de reflexão sobre o México. Por isso ela se tornou, com o tempo, um símbolo de resistência feminina reconhecido em toda a América Latina.
Outras curiosidades sobre os três murais:
FILMOGRAFIA
FRIDA. Direção: Julie Taymor. Estados Unidos, 2002. O filme acompanha a vida de Frida Kahlo e seu casamento com Diego Rivera, incluindo a polêmica em torno do mural que Rivera pintou para o Rockefeller Center, em Nova York, e que foi destruído por incluir um retrato de Lenin.
| O PROFESSOR INDICA
Vale assistir ao trecho do filme que recria a destruição do mural novaiorquino de Rivera. Comparado ao otimismo dos murais mexicanos que estudamos aqui, esse episódio mostra os limites da liberdade de um muralista quando o contratante é uma grande corporação privada, e não o Estado mexicano pós-revolucionário. |
VÍDEOS
SMARTHISTORY. Diego Rivera, murals at the National Palace, Mexico City. Artigo e vídeo de análise disponíveis em smarthistory.org, plataforma de história da arte associada à Khan Academy.
Material de exposição do Museu Nacional de História do México sobre o Retablo de la Independencia e as pegadas de Miguel Hidalgo, disponível em mnh.inah.gob.mx.
PARA IR MAIS FUNDO
CAPOZZI, Rebeca. Miguel Hidalgo: um homem e seus significados. Revista Trilhas da História, Três Lagoas, v. 7, n. 14, p. 213-230, jan./jun. 2018. O artigo analisa como diferentes murais e imagens construíram a figura mítica de Hidalgo ao longo do tempo, incluindo o mural de Orozco em Guadalajara.
INSTITUTO NACIONAL DE ANTROPOLOGÍA E HISTORIA (INAH). Museo Nacional de Historia. Material da exposição temporal sobre o Retablo de la Independencia e a sala dedicada às pegadas de Miguel Hidalgo, Castelo de Chapultepec, Cidade do México.
UNIVERSIDAD AUTÓNOMA DE TAMAULIPAS, Facultad de Arquitectura, Diseño y Urbanismo. El mural Retablo de la Independencia de México. Artigo institucional com descrição detalhada das quatro etapas narrativas do mural de O’Gorman.
SMARTHISTORY. Diego Rivera, murals at the National Palace, Mexico City. Análise acadêmica sobre as três paredes do ciclo pintado por Rivera entre 1929 e 1935.
GALERIA DE CADERNOS
| 📓 Caderno de retratos
Escolha um dos 37 personagens identificados no Retablo e refaça o retrato dele com o material que preferir, lápis, caneta ou colagem. |
📓 Caderno de linha do tempo
Monte uma linha do tempo ilustrada de 1808 a 1821, com pelo menos seis datas da cronologia desta unidade. |
| 📓 Caderno comparativo
Compare os três murais em uma tabela: técnica, tamanho, cores predominantes e sentimento que cada um provoca em quem observa. |
📓 Caderno de glossário
Defina, com suas próprias palavras, os termos afresco, indigenismo, criollo e alegoria, todos usados neste material. |
| 📓 Caderno de detetive
Sem consultar o gabarito, observe a versão sem numeração do mural de O’Gorman e tente identificar de memória pelo menos cinco elementos. |
📓 Caderno de reportagem
Escreva uma breve reportagem, como se você fosse um jornalista de 1813, cobrindo a abertura do Congresso de Chilpancingo. |