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Terça-feira, 4 de agosto de 2026
ANO I — RIO DE JANEIRO Terça-feira, 4 de agosto de 2026 EDIÇÃO ESPECIAL — HISTÓRIA
Ilustração Felipe Deveza
Professor Felipe Deveza

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Sara Baartman: Um corpo humano transformado em curiosidade de um museu europeu

Imagine um estudante haitiano em visita a Paris. Ele entra num grande museu e, numa das salas, encontra numa vitrine os restos mortais de uma mulher africana. O cartaz ao lado diz que ela foi trazida da África para ser exibida como atração em circos e feiras, e que após sua morte seu corpo foi dissecado e seus órgãos ficaram expostos por décadas. O estudante olha para aquela vitrine e pensa: o mesmo mundo que puniu meu povo por ter ousado ser livre foi capaz de fazer isso com o corpo de uma mulher.

Essa cena não é ficção. O museu existe. A mulher existiu. Ela se chamava Sara Baartman.

Quem foi Sara Baartman?

Sara nasceu por volta de 1789 no atual território da África do Sul. Era do povo Khoikhoi e tinha uma condição genética chamada esteatopigia, que provocava acúmulo de gordura nas nádegas. Perdeu o marido e um filho ainda bebê, e passou a trabalhar como doméstica numa fazenda colonial.

Em 1810, um médico escocês chamado Alexander Dunlop fez uma proposta: ela viajaria para a Europa, se exibiria em espetáculos e ficaria rica. Sara aceitou. Quando chegou a Londres, entendeu que havia sido enganada.

Com o codinome de ‘Vênus Hotentote’, foi apresentada enjaulada ou em palcos no Piccadilly Circus, em Londres, enquanto homens do público podiam tocar seu corpo. O termo ‘hotentote’ é hoje considerado um insulto colonial. Quando perdeu o apelo como espetáculo em Londres, foi vendida para um francês que a exibiu em cafés de Paris e a submeteu à prostituição.

Sara Baartman — gravura de exibição em Londres, c. 1810

 

Sara morreu em 29 de dezembro de 1815, aos 26 anos. Sua morte foi causada provavelmente por pneumonia e sífilis, doenças ligadas às condições em que vivia.

Mas a história não terminou com sua morte. O naturalista e anatomista Georges Cuvier dissecou seu corpo, fez um molde de gesso de toda a sua figura e colocou seu cérebro e seus órgãos genitais em frascos de vidro. Esses frascos ficaram expostos ao público no Museu do Homem de Paris até 1974, (algumas fontes afirmam 1985). Não numa caixa de arquivo. Numa vitrine, aberta a qualquer visitante.

 

Nelson Mandela pede a repatriação de Sara Baartman (1994)

Em 1994, o recém-eleito presidente da África do Sul, Nelson Mandela, dirigiu-se formalmente ao governo francês pedindo a devolução dos restos mortais de Sara Baartman como um ato de ‘descolonização psicológica’. Após anos de disputa judicial, a França concordou. Em 2002, 192 anos depois de Sara ter partido para a Europa, seu corpo retornou à África do Sul e foi enterrado em Hankey, na Província Oriental do Cabo. Um memorial foi construído em sua homenagem. Ela é hoje heroína nacional da África do Sul.

O povo Khoikhoi exigiu que o enterro seguisse seus próprios rituais, não os rituais europeus. Aquela que havia sido exposta sem escolha seria sepultada segundo a tradição de seu povo. Era um ato de dignidade, de retomada.

 

A HERANÇA QUE UNE SARA BAARTMAN, A REVOLUÇÃO HAITIANA E OS IMIGRANTES HAITIANOS NO BRASIL

Há um fio que liga esses três momentos. O mesmo sistema de pensamento que justificou escravizar 500 mil pessoas em Saint-Domingue também justificou exibir o corpo de Sara Baartman numa vitrine de museu. E a mesma herança histórica que faz o Haiti ser o país mais pobre das Américas é a que faz com que imigrantes haitianos sejam rejeitados em hospitais brasileiros. Esse fio se chama racismo estrutural: não é um conjunto de atitudes individuais, mas um sistema construído ao longo de séculos que ainda organiza quem tem acesso a direitos e quem não tem.

Perguntas para refletir:

  • O que a história de Sara Baartman nos diz sobre como o pensamento científico europeu do século XIX enxergava as pessoas negras?
  • Por que o corpo de Sara ficou exposto num museu por mais de 160 anos sem que ninguém se perguntasse se isso era justo?

Qual é a conexão entre o modo como Sara foi tratada e o modo como os imigrantes haitianos são tratados no Brasil hoje?

FILMOGRAFIA

O professor indica:


MASEKO, Zola (dir.). The life and times of Sara Baartman: the Hottentot Venus. África do Sul: Black Roots Pictures; First Run/Icarus Films, 1998. 53 min., son., color. Documentário.

O documentário trata da história de Sara Baartman entre 1810 e 1815, reconstituindo sua trajetória desde a Cidade do Cabo até Londres, onde foi exibida como curiosidade sob o rótulo de “Vênus Hotentote”. O filme articula desenhos históricos, caricaturas, documentos jurídicos e entrevistas com historiadores e antropólogos para desconstruir as premissas sociais, políticas, científicas e filosóficas que transformaram uma jovem africana em representação da sexualidade “selvagem” e da inferioridade racial.


MASEKO, Zola (dir.). The return of Sara Baartman. África do Sul: Black Roots Pictures; First Run/Icarus Films, 2003. 55 min., son., color. Documentário.

O filme acompanha o processo de repatriação dos restos mortais de Sara Baartman, mantidos no Musée de l’Homme de Paris, e aborda as questões de direitos de povos originários e a devolução de acervos humanos.


KECHICHE, Abdellatif (dir.). Vénus noire. França; Bélgica; Tunísia: MK2 Productions, 2010. 159 min., son., color. Roteiro: Abdellatif Kechiche e Ghalya Lacroix. Elenco: Yahima Torres, Andre Jacobs, Olivier Gourmet, François Marthouret. Distribuído no Brasil com o título Vênus Negra pela Imovision, 2011.

O longa de ficção reconstitui a história de Saartjie Baartman, mulher sul-africana da etnia Khoikhoi que deixa a África do Sul rumo à Europa, onde é obrigada a exibir seu corpo para o público londrino dos freakshows. O filme apresenta, entre outras cenas, a exposição do molde e dos desenhos da anatomia do corpo de Sara Baartman para a comunidade científica pelo naturalista Georges Cuvier, que usou o caso para defender teses sobre uma suposta hierarquia evolutiva entre grupos humanos.

 

VÍDEOS PARA ASSISTIR:

@curiosamoda

#sarahbaartman

♬ som original – Curiosamoda

https://www.dw.com/pt-002/quem-%C3%A9-sarah-baartman-da-%C3%A1frica-do-sul/video-42036819

SARA BAARTMAN DÁ NOME A UM CENTRO DE APOIO

Na África do Sul, um centro de acolhimento para vítimas de violência doméstica leva o nome de Sara Baartman. Quem foi desumanizada pelo sistema colonial virou símbolo de proteção e cuidado. Esse tipo de ressignificação histórica é uma forma de resistência.

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