NosOtros: Reflexões sobre História e Ensino na América Latina
Saiu pela Editora Todas as Musas o livro NosOtros: Reflexões sobre História e Ensino na América Latina, organizado por Juliana Pirola, Patrícia Mechi e Tereza Spyer, três professoras que se encontraram na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). A coletânea reúne pesquisadores, mestres, doutores e professores da Educação Básica em torno de um problema comum: como ensinar História a partir de uma perspectiva latino-americana e caribenha, que reconheça a região como protagonista de sua própria narrativa e não como apêndice de uma história centrada na Europa.
Eu tive a satisfação de integrar essa obra com um capítulo dedicado ao lugar do México no currículo brasileiro de História.
“O México em sala de aula”
No capítulo que escrevi para o livro, parto de uma questão recorrente na minha prática docente: por que a história mexicana ocupa um espaço tão reduzido nos currículos e nos livros didáticos brasileiros, apesar de sua relevância para pensar processos compartilhados por toda a América Latina? Para responder, retomo o debate em torno da construção da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que mobilizou historiadores como Ronaldo Vainfas e Hebe Mattos, além da Associação Nacional de História (ANPUH), e discuto como essa disputa expôs tensões entre uma história organizada por habilidades avaliativas e uma história atenta à temporalidade, à diacronia e à formação crítica dos estudantes. Esse pano de fundo ajuda a entender por que alguns temas da história mexicana se fixaram nos currículos enquanto outros, centrais na própria historiografia produzida no México, permanecem praticamente ausentes das salas de aula brasileiras.
A partir desse diagnóstico, defendo que quatro temas merecem destaque na Educação Básica pelo seu potencial de universalidade: as sociedades mesoamericanas, a conquista espanhola, a independência mexicana e a Revolução Mexicana. Em cada um deles, busco superar simplificações ainda comuns nos materiais didáticos, como a chamada “tríade pré-colombiana”, que reduz astecas, maias e incas a um bloco homogêneo e atemporal, e proponho caminhos que dialogam com a historiografia mexicana contemporânea e com recursos como os murais de Orozco e Rivera. O capítulo termina com um convite a especialistas em História da América Latina, e em particular do México, para que se aproximem da sala de aula, traduzindo pesquisa acadêmica em práticas pedagógicas capazes de reduzir a distância entre a universidade e a Educação Básica.
Os outros capítulos do livro
As duas primeiras partes da coletânea tratam da relação entre currículo e descolonização do saber. A Parte I reúne experiências docentes que questionam a invisibilidade de mulheres indígenas e negras na história ensinada, além de projetos curriculares como os Estudos Latino-Americanos do Colégio de Aplicação da UFRGS e o intercâmbio entre os colégios de aplicação da UFRGS e da UFSC. A Parte II desloca o foco para as políticas educacionais, analisando os currículos de história dos países do Mercosul, o sistema escolar francês na Guiana Francesa e o que um dos capítulos chama de “currículo vigiado” do Estado do Paraná, evidenciando como o currículo funciona, antes de tudo, como campo de disputa política.
As três partes seguintes ampliam o olhar para outras linguagens e temporalidades. A Parte III explora música, cinema e cultura pop, da reflexão sobre Bad Bunny e o reggaeton ao uso do filme cubano “Juan de los Muertos” em sala de aula, território onde meu próprio capítulo também se insere ao propor os murais mexicanos como recurso didático. A Parte IV volta o olhar para as ditaduras do Cone Sul, o conflito armado interno no Peru e a Revolução Cubana, discutindo como a memória das violências políticas pode fortalecer a formação democrática dos estudantes. Por fim, a Parte V encerra o livro com reflexões sobre diplomacia cultural entre Brasil, Argentina e México na primeira metade do século XX, migrações latino-americanas na rede municipal de São Paulo e uma abordagem sensível sobre finitude e luto a partir do Día de Muertos.
Sumário
Ensinar História a partir de uma perspectiva latino-americana e caribenha — Juliana Pirola, Patrícia Mechi e Tereza Spyer
Parte I — Descolonizar Saberes: Perspectivas Críticas e Práticas Educativas
- Por uma América plural, diversa e afetiva: experiência docente no ensino de História na América Latina — Lorena Zomer
- O que Malinche tem a ver com o ensino da História? Mulheres indígenas na história e na luta por um mundo mais justo — Meri Emeli Alves Machado
- Estudos latino-americanos no Colégio de Aplicação da UFRGS: práticas decoloniais e produção de saberes na Educação Básica — Evelin Cunha Biondo e Edson Antoni
- Caminhos para a construção de outros saberes: o projeto de intercâmbio Tchê-Mané e uma perspectiva decolonial de educação — Edson Antoni
Parte II — Currículo, Políticas Educacionais e Desafios Contemporâneos
- Ensino de História e integração regional nos países do Mercosul: uma questão de currículo? — Sara Geittens Perpetua e Juliana Pirola da Conceição
- Guerras, fronteiras e identidade nacional: currículos e perspectivas para o ensino de História nos países do Mercosul — Luís Antônio Antunes da Costa e Juliana Pirola da Conceição
- O sistema escolar francês na Guiana Francesa: assimilação, colonialidade e a formação de elites crioulas — Willian Luiz da Conceição
- A América Latina no currículo vigiado do Estado do Paraná — Wilian Carlos Cipriani Barom
Parte III — Cultura e Identidade: Música, Cinema e Artes no Ensino de História
- Latin pop music, cultura histórica e ensino de História — Igor Lemos Moreira
- DTMF: o reggaeton como uma ferramenta de reflexão da identidade latino-americana no ensino de História — Maria Sarah do Nascimento Brito e Eulália da Costa Guarinello
- História a partir de filmes e a formação do olhar crítico: uma experiência a partir de “Juan de los Muertos” — Liz Andréa Dalfré
- O México em sala de aula — Felipe Deveza
Parte IV — Memória e Resistência: Ensinar o Passado, Refletir o Presente
- Reflexões sobre as ditaduras no Cone Sul: desafios e potencialidades na Educação Básica — Marcos Vinícius Ferreira Trindade
- Da ditadura ao conflito armado interno no Peru: uma análise da historieta “Efectos del puno terrorismo” como representação da violência política — Júlia Luciana Barra
- ¿Qué les pasa a los jóvenes en los museos y espacios de memoria? Reflexiones sobre la enseñanza de la Historia y la transmisión del pasado dictatorial en Sao Paulo y Buenos Aires — Marcelo Henrique Leite e Mariana Paganini
- A Revolução Cubana no Ensino Médio: desafios e possibilidades para uma educação crítica sobre a América Latina — Giovana Mylena Silva Soares e Maria Cllara Barbieri Farinha Marrafa
Parte V — Educação para a Paz, Migrações e Cidadania na América Latina
- Ensino de História, diplomacia e educação para a paz na América Latina: Argentina, Brasil e México (1920-1950) — Diogo Henrique Vianna e Arnaldo Pinto Júnior
- A América Latina ao meu lado: reflexões sobre o ensino de História e migrações no contexto da rede municipal de ensino da cidade de São Paulo — Fabiana Bezerra Nogueira e Eustáquio Ornelas Cota Jr.
- Finitude e luto no ensino de História: uma abordagem reflexiva a partir do “Día De Muertos” — Isabela Mesquita Gomes e Ronaldo Cardoso Alves
Por que esse livro importa para quem ensina História
NosOtros nasce de um incômodo compartilhado por seus organizadores e autores: o ensino de História na América Latina ainda carrega, em boa parte dos livros didáticos, abordagens que a pesquisa acadêmica das últimas décadas já superou. Temas como as sociedades indígenas, os processos de independência ou as ditaduras do século XX continuam sendo tratados, com frequência, a partir de esquemas que a historiografia revisou há tempos, sustentados mais pela tradição curricular do que pela produção científica atual. Atualizar essas leituras em sala de aula não é um exercício de erudição distante da prática docente, é uma condição para que os estudantes compreendam a América Latina como uma região complexa, conectada por histórias compartilhadas e atravessada por disputas que ainda moldam o presente. Espero que este livro, e o capítulo que escrevi para ele, contribuam para esse esforço de aproximar a pesquisa universitária das salas de aula da Educação Básica.