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Domingo, 7 de junho de 2026
ANO I — RIO DE JANEIRO Domingo, 7 de junho de 2026 EDIÇÃO ESPECIAL — HISTÓRIA
Ilustração Felipe Deveza
Professor Felipe Deveza

Repositório de História e Materiais Didáticos

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A Vênus Hotentote, capítulo do Livro: O Sorriso do Flamingo (1985), de Stephen Jay Gould

“A Vênus Hotentote” é o capítulo 19 de O Sorriso do Flamingo (1985), coletânea de ensaios do paleontólogo e historiador da ciência Stephen Jay Gould, professor em Harvard e um dos intelectuais científicos mais lidos do século XX em língua inglesa. O livro reúne textos publicados originalmente na coluna mensal que Gould manteve por mais de duas décadas na revista Natural History, e sua recepção foi ampla tanto no circuito acadêmico quanto entre o público leigo.

O capítulo narra a história de Saartjie Baartman, mulher Khoi-San trazida da Cidade do Cabo para Londres em 1810 com promessas de enriquecimento e exibida em jaulas durante cinco anos como “curiosidade” racial e sexual. Após ser vendida a um domador de animais em Paris, morreu em 1815, aos 26 anos. Georges Cuvier, o maior anatomista francês da época, dissecou o corpo e preservou os órgãos genitais num frasco que permaneceu exposto no Musée de l’Homme até 1974. A história de Saartjie ressurgiu para o debate público em 1981, quando Gould escreveu sobre ela em The Mismeasure of Man, obra em que criticou sistematicamente a ciência racial. O capítulo de O Sorriso do Flamingo é o desenvolvimento mais completo dessa análise.

A importância acadêmica do texto é dupla. Primeiro, Saartjie Baartman aparece nos escritos de William Makepeace Thackeray, Victor Hugo, Charles Darwin, Stephen Jay Gould e até na poeta do discurso inaugural de Barack Obama, Elizabeth Alexander, e hoje ativistas e acadêmicos a reivindicam como símbolo da exploração ocidental e do racismo. Gould foi o responsável por devolver a história ao centro do debate científico e político contemporâneo. Segundo, o capítulo demonstra com precisão documental como a ciência oitocentista funcionou como instrumento de legitimação do colonialismo: Cuvier chegou à dissecção com a conclusão já formada e organizou os dados para confirmá-la. Esse argumento, desenvolvido por Gould em vários livros, tornou-se referência obrigatória nos estudos sobre racismo científico e história da antropologia física.

Os restos mortais de Saartjie foram finalmente devolvidos à África do Sul em 2002, após negociações entre os governos sul-africano e francês iniciadas a pedido de Nelson Mandela em 1994. A repatriação foi um ato de reparação histórica que não teria ocorrido sem a pressão intelectual acumulada ao longo dos anos anteriores, na qual o texto de Gould desempenhou papel central.

O que o leitor encontrará neste capítulo é uma análise rigorosa e direta: a demonstração de que a exposição de Saartjie Baartman reuniu em um único espetáculo o colonialismo, o racismo científico e a objetificação sexual de mulheres negras, três dimensões que o pensamento antirracista do século XX precisou enfrentar simultaneamente. O texto de Gould foi um dos primeiros, no circuito acadêmico de língua inglesa e de grande circulação, a nomear essa convergência com clareza.

AP
Autoridades francesas e sul-africanas com o molde de gesso de Baartman antes da devolução (imagem disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160110_mulher_circo_africa_lab

 

19. A Vénus hotentote

Eu tinha uma amiguinha no jardim de infância. Nem me lembro do nome dela. Mas, sem dúvida, lembro-me de um conselho secreto que lhe dei um dia no playground. Eu disse a ela que as criaturas enormes que nos rodeavam, conhecidas como adultos, sempre olhavam para cima quando andavam, e que nós, o pessoal miúdo, podíamos encontrar todo o tipo de coisas valiosas se olhássemos para baixo. Será que as minhas predisposições paleontológicas já estavam em evidência?

Cari Sagan e eu crescemos em Nova York, ambos interessados em biologia e astronomia. Como Cari Sagan é alto e escolheu a astronomia, ao passo que eu sou baixo e escolhi a paleontologia, sempre imaginei que ele continuaria olhando para cima (como ele fez com certa regularidade ao apresentar a sua série de TV, Cosmos), e que eu continuaria aferrado ao meu conselho, velho, porém bom, de ficar olhando para baixo. Mas, no mês passado, em Paris, eu o venci por uma cabeça (literalmente).

Alguns anos atrás, Yves Coppens, professor do Musée de L’Homme em Paris, levou Cari Sagan para uma excursão pelas entranhas do museu. Lá, armazenado numa estante, eles encontraram o cérebro de Paul Broca, flutuando numa redoma de formalina. Cari escreveu um bom ensaio sobre essa visita, a peça título do seu livro Broca’s Brain. Alguns meses atrás, Yves levou-me para uma excursão semelhante. Eu segurei o crânio de Descartes e o do nosso ancestral mútuo, o antigo homem de Cro-Magnon. Também encontrei o cérebro de Broca, repousando na sua prateleira e rodeado por outras redomas contendo os cérebros dos seus ilustres contemporâneos científicos — todos brancos e todos homens. No entanto, encontrei as peças mais interessantes na prateleira logo acima. Talvez Cari nem tenha olhado para cima.

Essa área das “alas dos fundos” do museu contém a coleção de peças anatômicas de Broca, inclusive a sua generosa e póstuma contribuição. Broca, um grande anatomista clínico e antropólogo, corporificou a grande fé do século XIX na qualificação como chave para a ciência objetiva. Se ele pudesse coletar órgãos humanos em quantidade suficiente de uma quantidade suficiente de raças humanas, as medidas resultantes com certeza definiriam a grande escala do progresso humano, do chimpanzé ao caucasiano. Broca não era mais virulentamente racista do que os seus contemporâneos científicos (quase todos homens brancos bem-sucedidos, claro); ele apenas foi mais diligente no acúmulo de dados irrelevantes, apresentados seletivamente para sustentar um ponto de vista apriorístico.

Essas estantes contêm um potpourri horripilante: cabeças cortadas da Nova Caledônia; uma ilustração do amarramento de pés praticado pelas mulheres chinesas — sim, um pé amarrado, junto com a parte inferior das pernas, cortada entre o joelho e o tornozelo. E, numa prateleira logo acima dos cérebros, vi uma pequena exposição que me forneceu um discernimento imediato e arrepiante da mentalité do século XIX e da história do racismo: em três frascos menores, vi os órgãos genitais dissecados de mulheres do terceiro mundo. Não encontrei o cérebro de nenhuma mulher, e tampouco o pênis de Broca ou de algum outro homem honravam a coleção.

Os três frascos têm escrito nos rótulos une négresse, une péruvienne e la Vénus Hottentotie, ou a Vénus hottentote. O próprio Georges Cuvier, o maior anatomista da França, dissecara a Vénus hotentote depois da morte dela em Paris no final de 1815. Cuvier atacou diretamente os órgãos genitais por um motivo particular e interessante, ao qual retornarei após relatar a história dessa infeliz mulher.

Numa época em que a televisão e o cinema ainda não haviam feito com que virtualmente tudo deixasse de ser exótico, e quando a teoria antropológica avaliava como subumanos tanto os caucasianos mal formados quanto os representantes normais de outras raças, a exposição de humanos incomuns tornou-se um negócio lucrativo, não só nos salões da classe alta, como também nas barracas de rua (ver The Shows of London, de Richard D. Altick, na Bibliografia, ou o tratamento dado ao “Homem Elefante” no livro, no palco e no cinema). Supostos selvagens de terras longínquas eram um dos esteios dessas exposições, e a Vénus hotentote superou a todos em fama. (Os hotentotes e os boxmanes são povos aparentados, de baixa estatura, do sul da África. Os boxmanes tradicionais, quando encontrados pela primeira vez pelos europeus, viviam da caça e do extrativismo, enquanto os hotentotes criavam gado. Os antropólogos inclinam-se agora a abandonar esses termos europeus, um tanto depreciativos, e a designar coletivamente os dois grupos como povos Khoi-San, uma palavra composta, obtida a partir dos nomes que cada um dos grupos dá a si mesmo). A Vénus hotentote era empregada de fazendeiros holandeses perto da Cidade do Cabo, e não sabemos a qual grupo ela pertencia. Ela tinha nome, embora os que a exploravam nunca o tenham usado. Foi batizada como Saartjie Baartman (Saartjie, ou “pequena Sara” em africâner, pronuncia-se Sar-qui).

Hendrick Cezar, irmão do “empregador” de Saartjie, sugeriu uma viagem para que Saartjie fosse exibida na Inglaterra e prometeu torná-la uma mulher rica. Lord Caledon, governador da província do Cabo, concedeu a permissão para a viagem, mas arrependeu-se mais tarde, quando compreendeu plenamente os seus objetivos. (A exibição de Saartjie provocou muitos debates, e ela sempre teve simpatizantes, enojados com a exibição de humanos como animais; o espetáculo continuou, mas sem aprovação universal.) Ela chegou a Londres em 1810, e foi imediatamente exposta em Piccadilly, onde causou sensação, por motivos a serem discutidos em breve. Um membro da Associação Africana, uma sociedade beneficente que requereu a sua “libertação”, descreveu o espetáculo. Ele encontrou Saartjie pela primeira vez numa jaula, sobre uma plataforma erguida uns poucos pés acima do chão:

Ao receber a ordem do carcereiro, ela saiu. … A hotentote foi apresentada como um animal selvagem, e foi-lhe ordenado que andasse para trás e para diante, e que saísse e entrasse na jaula, mais como um urso treinado do que como um ser humano.

leão que se posta rugindo à frente da sua caverna, recusando-se a partir antes que lhe seja feita uma oferenda de paz.

Guenther relata que esse igualamento de boximane e animal tornou-se tão arraigado que um grupo de colonos holandeses matou e comeu um boximane durante uma expedição de caça, presumindo que ele fosse o equivalente africano do orangotango malaio.

A monografia da dissecção de Saartjie, feita por Cuvier e publicada nas Mémoires du Muséum d’Histoire Naturelle do ano de 1817, seguiu esse parecer tradicional. Após discutir e rejeitar várias lendas infundadas, Cuvier prometeu apresentar apenas os “fatos positivos” — inclusive esta descrição da vida de um boximane:

Como são incapazes de se dedicar à agricultura, ou mesmo ao pastoreio, eles subsistem inteiramente da caça e do furto. Moram em cavernas e cobrem-se apenas com as peles dos animais que mataram. Sua única indústria consiste no envenenamento das flechas e na manufatura de redes de pesca.

A sua descrição da própria Saartjie enfatiza todos os pontos de semelhança superficial com qualquer macaco ou grande antropoide. (Mal preciso mencionar que, como as pessoas variam tanto, a descrição da vida de um boximane é mais detalhada e mais detalhada do que a descrição da vida de um boximane.)

cada grupo tem de estar mais próximo do que outros de algum traço de um ou outro primata, sem que isso implique qualquer coisa sobre genealogia ou capacidade.) Cuvier, por exemplo, discute o achatamento dos ossos nasais de Saartjie: “Neste aspecto, nunca vi uma cabeça humana mais semelhante à dos macacos.” Ele enfatiza várias proporções do fêmur (osso superior da perna) como corporificando “caracteres de animalidade”. Cuvier fala do crânio pequeno de Saartjie (o que não chega a ser surpresa numa mulher com quatro pés e meio de altura) e a relega à estupidez em conformidade com “aquela lei cruel, que parece ter condenado a uma inferioridade eterna as raças com crânios pequenos e comprimidos”. Ele até mesmo extrai uma série de reações supostamente simiescas do comportamento dela: “Os seus movimentos tinham algo de brusco e caprichoso, que lembrava o dos macacos. Ela tinha, acima de tudo, um modo de fazer beicinho da mesma maneira que observamos os orangotangos fazerem.”

Contudo, uma leitura cuidadosa da monografia inteira desmente essas interpretações, já que condição racial. Ela não era apenas uma hotentote, ou a mulher hotentote, mas a Vénus hotentote. Sob todas as palavras oficiais residia o grande e, muitas vezes, não mencionado motivo da sua popularidade. As mulheres Khoi-San com certeza exageraram duas características da sua anatomia sexual (ou, pelo menos, de partes do corpo que excitam desejo sexual na maioria dos homens). A Vénus hotentote conquistou a fama como um objeto sexual, e a sua combinação de suposta bestialidade e fascinação lasciva concentrou a atenção de homens que podiam obter desse modo prazer indireto e uma presunção confirmada da sua superioridade.

Antes de mais nada — pois, como dizem, não há como não perceber — Saartjie era, nas palavras de Altick, “esteatopagia ao extremo”. As mulheres Khoi-San acumulam grandes quantidades de gordura nas nádegas, uma condição denominada esteatopagia. As nádegas projetam-se bem para trás, muitas vezes formando um cume na extremidade superior, descendo então em direção aos órgãos genitais. Saartjie era especialmente bem dotada, o motivo provável para a decisão de Cezar de convertê-la de empregada em mulher fatal. Saartjie cobria os órgãos sexuais durante as exibições, mas a sua extremidade posterior era o espetáculo, e ela se submeteu a um exame e a uma bisbilhotice intermináveis durante cinco longos anos. Uma vez que as mulheres europeias não usavam anquinhas na época, indicando pela roupa o que a natureza lhes dera, Saartjie parecia ainda mais incrível.

Cuvier demonstrou compreender muito bem a natureza mista, bestial e sexual, do fascínio de Saartjie, ao escrever que “todos puderam vê-la durante a sua estada de dezoito meses na nossa capital e verificar a enorme protrusão das suas nádegas e a aparência animalesca do seu rosto”. Na sua dissecção, Cuvier concentrou-se sobre um mistério não resolvido que envolvia cada uma das suas características incomuns. Por um bom tempo, os europeus haviam se perguntado se as nádegas grandes eram gordurosas, musculosas ou talvez até mesmo sustentadas por um osso anteriormente desconhecido. O problema já fora resolvido — em favor da gordura — por meio da observação externa, a razão principal do seu desnudamento perante cientistas no Jardin du Roi. Ainda assim,

Cuvier disse cou-lhe as nádegas e relatou:

Pudemos verificar que a protuberância das suas nádegas nada tinha de musculoso, mas era devida a uma massa gordurosa de uma consistência trêmula e elástica, situada imediatamente sob a pele. Ela vibrava com todos os movimentos feitos pela mulher.

No entanto, a segunda peculiaridade de Saartjie provocava curiosidade e especulação ainda maiores entre os cientistas, e Saartjie alimentou ainda mais esse interesse ao manter esta característica escrupulosamente oculta, recusando até mesmo uma exibição no Jardin. Apenas depois da sua morte é que pôde ser saciada a curiosidade da ciência.

Durante dois séculos haviam circulado relatos sobre uma espantosa estrutura ligada diretamente aos órgãos genitais das mulheres Khoi-San, que lhes cobriria os órgãos pudendos com um véu de pele, o chamado sinus pudoris, ou “cortina do pudor”. (Caso me seja permitida uma breve excursão pelo domínio das minúcias eruditas — as notas de rodapé da publicação acadêmica mais convencional — gostaria de corrigir um erro padrão na tradução de Lineu, um erro que eu mesmo cometi. Na sua descrição original do Homo sapiens, Lineu apresentou um relato nada lisonjeiro sobre os negros africanos, o qual incluía a expressão feminae sinus pudoris. Essa expressão tem sido traduzida como “as mulheres não têm vergonha” — uma calúnia inteiramente compatível com a descrição geral de Lineu. Em latim, “sem vergonha” seria sine pudore, não sinus pudoris. Mas o latim científico do século XVIII era escrito de modo tão sofrível que os erros de grafia e de casos não constituem um obstáculo para a intenção real, e a interpretação de “sem vergonha” acabou por ser mantida. Lineu, entretanto, estava apenas afirmando que as mulheres africanas possuem uma saliência genital, ou sinus pudoris. Também estava errado, porque só as Khoi-San e as mulheres de alguns povos aparentados desenvolvem essa característica).

A natureza do sinus pudoris havia gerado um debate intenso, com partidários de ambos os lados afirmando ter o apoio de testemunhas oculares. Um partido afirmava que o sinus era simplesmente uma parte aumentada dos órgãos genitais comuns; outros diziam tratar-se de uma estrutura nova, não encontrada em nenhuma outra raça. Alguns chegaram mesmo a descrever o chamado “avental hottentote” como uma grande dobra de pele pendendo da própria porção inferior do abdômen.

Cuvier estava determinado a solucionar essa antiga controvérsia; a condição do sinus pudoris de Saartjie seria o objetivo principal da sua dissecção. Cuvier iniciou a sua monografia observando: “Não há nada mais famoso na história natural que o tablier (a tradução francesa de sinus pudoris) das hottentotes, e, ao mesmo tempo, nenhuma característica tem sido objeto de tantas controvérsias.” Cuvier resolveu a polêmica com a sua costumeira elegância: os labia minora, ou lábios internos, dos órgãos femininos comuns são extremamente desenvolvidos nas mulheres Khoi-San, e podem pender até três ou quatro polegadas abaixo da vagina quando as mulheres estão de pé, causando assim a impressão de que se trata de uma cortina de pele envoltória e separada. Cuvier preservou a sua habilidosa dissecção dos órgãos de Saartjie e escreveu com um floreio: “Tenho a honra de apresentar os órgãos genitais desta mulher, preparados de modo tal que não restem dúvidas quanto à natureza do seu tablier.” E a dádiva de Cuvier ainda repousa no seu frasco, esquecida numa prateleira do Musée de l’Homme — logo acima do cérebro de Broca.

No entanto, ao mesmo tempo em que identificava corretamente a natureza do tablier de Saartjie, ele incorria num erro interessante, resultado da mesma falsa associação que inspirara o fascínio público por Saartjie — sexualidade e animalidade. Como Cuvier considerava os hotentotes o mais bestial dos povos, e como as suas mulheres tinham um tablier grande, ele presumiu que o tablier de outras africanas devia tornar-se progressivamente menor à medida que a escuridão da África meridional cedia lugar à claridade do Egito. (Na última parte da sua monografia, Cuvier afirma que os egípcios antigos devem ter sido plenamente caucasianos; quem mais poderia ter construído as pirâmides?)

Cuvier sabia que a circuncisão feminina era amplamente praticada na Etiópia. Presumiu que o tablier devia ser, pelo menos, de tamanho médio entre essas pessoas de tonalidade e geografia intermediárias, e conjecturou ainda que os etíopes amputavam o tablier para facilitar o ato sexual, e não que a circuncisão representasse um costume sustentado pelo poder e imposto a garotas com órgãos notavelmente diferentes dos das mulheres europeias. “As negras da Abissínia”, escreveu ele, “são importunadas a ponto de serem obrigadas a destruir essas partes com faca e cauterização” (par le fer et par le feu, como escreveu ele, em francês mais eufônico).

Cuvier também relatou uma história interessante que, repetida, não necessita de comentários:

Os jesuítas portugueses, que converteram o rei da Abissínia e parte do seu povo durante o século XVI, sentiram-se obrigados a proscrever essa prática da circuncisão feminina por acharem que ela era remanescente do antigo judaísmo daquela nação. Mas aconteceu que as garotas católicas não mais conseguiam encontrar marido, porque os homens não eram capazes de se reconciliar com uma deformidade tão repugnante. O Colégio da Propaganda enviou um cirurgião para verificar o fato e, com base no seu relatório, o restabelecimento do antigo costume foi autorizado pelo Papa.

Não tenho necessidade de sobrecarregá-lo com nenhuma refutação detalhada dos argumentos gerais que fizeram de Vénus hotentote tamanha sensação. Mas, na verdade, acho engraçado que ela e o seu povo sejam, pelas convicções modernas, tão singular e especialmente inadequados para o papel que ela foi forçada a desempenhar.

Se os povos Khoi-San eram tidos pelos velhos cientistas como aproximações dos primatas inferiores, eles agora se distinguem como os heróis dos movimentos sociais modernos. As suas linguagens, com cliques complexos, foram certa vez desprezadas como uma mixórdia gutural de sons animalescos. São agora admiradas pela sua complexidade e sutileza de expressão. Cuvier estigmatizava o estilo de vida de caça e extrativismo dos San (boximanes) tradicionais como a degradação suprema de um povo estúpido e indolente demais para se dedicar à agricultura ou à criação de gado. As mesmas pessoas hoje se tornaram modelos de retidão para os modernos militantes ecologistas devido à sua abordagem compreensiva, não exploratória e equilibrada dos recursos naturais. É claro, como Guenther argumenta no seu artigo sobre a imagem em mudança dos boximanes, pode ser que os nossos louvores modernos também não sejam realistas. Ainda assim, se as pessoas têm de ser exploradas em vez de compreendidas, imputações de bondade e heroísmo certamente são melhores do que acusações de animalidade.

Além disso, enquanto os contemporâneos de Cuvier procuravam sinais físicos de bestialidade na anatomia dos Khoi-San, os antropólogos agora identificam essas pessoas como, talvez, o mais pedomórfico dos grupos humanos. Os humanos evoluíram através de uma desaceleração geral das taxas de desenvolvimento, deixando os nossos corpos adultos bastante semelhantes em vários aspectos à forma juvenil, mas não à adulta, dos nossos ancestrais primatas — um resultado evolutivo chamado pedomorfose, ou “conformação infantil”. Por esse critério, quanto maior o grau da pedomorfose, maior a distância de um passado simiesco (embora diferenças menores entre as raças

Dessa maneira, os órgãos sexuais exagerados de Saartjie testemunhavam a sua animalidade. Mas o argumento é, como dizem os nossos amigos ingleses, “arse about face”. Os humanos são os mais sexualmente ativos dos primatas, e os humanos possuem os maiores órgãos sexuais da ordem. Caso tenhamos de seguir esta linha dúbia de argumentação, uma pessoa com dotes acima da média é, se é que é alguma coisa, mais humana.

Sob todos os aspectos — modo de vida, aparência física e anatomia sexual — Londres e Paris deveriam ter sido colocadas numa jaula gigantesca para que Saartjie as olhasse. Ainda assim, Saartjie conquistou o seu triunfo póstumo. Broca herdou não apenas o tablier de Saartjie preparado por Cuvier, mas também o seu esqueleto. Em 1862, ele achou que havia encontrado um critério para ordenar as raças humanas por mérito físico. Ele mediu a razão entre o rádio (osso inferior do braço) e o úmero (osso superior do braço), raciocinando que razões mais altas indicam antebraços maiores — uma característica tradicional dos macacos. Começou a imaginar que a mediação objetiva havia confirmado esse pré-julgamento quando obteve a média de .794 para os negros e de .739 para os brancos. Mas o esqueleto de Saartjie ofereceu .703 e Broca abandonou prontamente o seu critério. Cuvier não havia elogiado o braço da Vénus hotentote?

Saartjie continua hoje mantendo a sua vitória sobre o sr. Broca. O cérebro dele se decompõe num frasco mal vedado. O tablier dela está colocado acima, enquanto o seu bem preparado esqueleto olha para cima. A morte, como diz o bom livro, é tragada pela vitória.

Pós-escrito

Como o determinismo biológico conquistou o seu prestígio com pretensões espúrias de objetividade por meio da quantificação (ver meu livro, The Mismeasure of Man), e como Saartjie Baartman deve a sua opressão a essa doutrina política fantasiada de ciência, foi divertido descobrir que o próprio Francis Galton, o principal apóstolo da quantificação (e da hereditariedade), certa vez usou uma técnica engenhosa para medir o grau de esteatopagia de uma mulher Khoi-San. Galton, o primo brilhante e excêntrico de Darwin, acreditava que podia traduzir qualquer coisa em números. Certa vez, ele tentou quantificar a distribuição geográfica da beleza feminina por meio do dúbio método apresentado a seguir (tal como descrito na sua autobiografia, Memories of my Life, 1909, pp. 315-316):

Sempre que tenho oportunidade de classificar as pessoas que encontro em três classes, “boa, média, ruim”, uso uma agulha montada como um perfurador, com o qual faço furos, sem ser visto, num pedaço de papel, rasgado, grosso modo, na forma de uma cruz com um pé longo. Uso a extremidade superior para “boa”, o braço da cruz para “média”, e a ponta inferior para “ruim”. Os furos mantêm-se distintos e são decifrados facilmente nas horas de ócio. O objeto, o lugar e a data são escritos no papel. Usei esse plano para os meus dados de beleza, classificando as garotas por quem eu passava nas ruas ou outros lugares como atraentes, comuns ou repelentes. Trata-se, claro, de uma estimativa puramente pessoal, mas coerente, a julgar pela conformidade das diferentes tentativas realizadas com a mesma população. Descobri que Londres possuía a maior quantidade de beleza, Aberdeen, a menor.

O seu judicioso método para a esteatopagia foi, na minha opinião, ainda mais engenhoso (e provavelmente bem mais preciso, se todas aquelas provas de trigonometria do colegial funcionam mesmo). Na sua Narration of an Explorer in Tropical South Africa, ele escreve (meus agradecimentos a Raymond B. Hay da Universidade de Washington por me enviar esta passagem):

O subintérprete era casado com uma pessoa encantadora, não apenas uma hotentote na aparência, mas, nesse aspecto, uma Vénus entre os hotentotes. Fiquei perfeitamente estupefato diante do seu desenvolvimento, e fiz indagações a respeito desse delicado ponto tanto quanto me atrevi junto aos meus amigos missionários. … Professo ser um homem científico, e estava por demais ansioso para obter medidas exatas da sua forma; mas havia uma dificuldade para fazê-lo. Eu não sabia uma palavra de hotentote e, portanto, nunca poderia explicar à dama qual poderia ser o objeto da minha bitola; e, realmente, eu não me atrevia a pedir ao meu digno missionário que atuasse como meu intérprete. Portanto, estava num dilema, enquanto contemplava a sua forma, aquela dádiva da generosa natureza e dessa raça exuberante, que um fabricante de mantôs, com todas as suas crinolinas e enchimentos, pode apenas humildemente imitar. O objeto da minha admiração estava de pé sob uma árvore, voltando-se para todos os pontos cardeais, como geralmente fazem as damas que desejam ser admiradas. Súbito, o meu olhar pousou sobre o sextante; ocorreu-me a brilhante ideia, e eu extraí uma série de observações da sua figura, em todas as direções, de cima para baixo, transversalmente, diagonalmente, e assim por diante, registrando-as com todo o cuidado num esboço da sua imagem para que não houvesse nenhum erro; feito isso, corajosamente saquei a minha fita métrica e medi a distância de onde eu estava até o lugar onde ela se encontrava, calculando os resultados por meio de trigonometria e logaritmos.

A própria Saartjie Baartman continua a nos fascinar através dos tempos; a exploração a seu respeito, de fato, nunca terminou. Numa loja de antiguidades de Joanesburgo (ver ensaio 12), encontrei e comprei a notável estampa apresentada a seguir. (Ainda não consigo vê-la sem um arrepio, apesar do efeito humorístico pretendido, e reproduzo-a aqui na condição de um comentário sobre a história e a realidade presente que não nos atrevemos a ignorar.) A gravura é um comentário satírico francês (publicado em Paris no ano de 1812) sobre a fascinação dos ingleses pela exibição de Saartjie. Intitula-se: Les curieux en extase, ou les cordons de souliers (Os curiosos em êxtase, ou os cordões de sapato). Os espectadores concentram-se inteiramente sobre as características sexuais da Vénus hotentote. Um cavalheiro fardado observa a esteatopagia de trás e comenta: “Oh! godem quel rosbif”. O segundo homem de uniforme e a senhora elegantemente trajada estão tentando dar uma espiada no tablier de Saartjie. (Este é o detalhe sutil que um observador não informado não perceberia. Saartjie exibia as nádegas mas, seguindo os costumes do seu povo, nunca descobria o tablier.) O homem exclama “como é estranha a natureza”, enquanto a mulher, com esperanças de obter uma vista melhor de baixo, inclina-se a pretexto de amarrar os cordões dos sapatos (daí o título). Enquanto isso, o cão nos lembra que, sob os nossos diversos trajes, somos todos o mesmo objeto biológico.

Para atualizar a exploração, W. B. Deatrick enviou-me a capa da revista francesa Photo de maio de 1982. Ela mostra uma mulher nua que se autodenomina “Carolina, la Vénus hottentote de Saint-Domingue”. Ela segura à sua frente uma garrafa destampada de champanhe. A espuma passa voando por cima da sua cabeça, atravessa a letra O do título da revista, cai por trás dela, diretamente no copo, o qual se encontra sobre as nádegas espichadas da jovem, que se abaixa (para imitar os dotes de Saartjie).

 

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